por João Manuel Rocha

Jornalista, fez parte das agências ANOP e Lusa e integrou a equipa fundadora do Público, onde trabalhou até 2016. Nos anos mais recentes deu particular atenção aos países africanos lusófonos e a questões do desenvolvimento. Doutorando em Ciências da Comunicação no ISCTE-IUL, é professor convidado da Escola Superior de Comunicação Social e colaborador do CEsA - Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina.

Mikel sentiu a frustração durante a ofensiva israelita sobre Gaza, em 2014. “Não pode ser que estejam aqui todas as câmaras do mundo em directo e que não aconteça nada”, dizia para si próprio.” “Estás ali, trabalhas, denuncias o que vês e dás-te conta que o teu trabalho não serviu para nada”. Será assim? O jornalismo é inconsequente ou pode fazer mudar alguma coisa? “Guerras de ayer e de hoy” ajuda a pensar em possíveis respostas.


Mais do que sobre a guerra, que mudando embora os meios, as condições e as pessoas, continua na essência a ser o mesmo – como diz a páginas tantas um dos interlocutores – é sobre jornalismo e algumas das suas encruzilhadas; e um mundo que parece ter deixado de se indignar e é incapaz de dedicar mais do que três dias de atenção a cada assunto, a conversa vertida em livro, o primeiro da colecção Voces 5W, entre Mikel Ayesteran e Ramón Lobo, dois homens unidos pela paixão de contar que aqui partilham experiências sobre jornalismo e guerra.


O Iraque e a “entrada de elefante dos EUA” (Ramón), que fez com que passassem num ápice de libertadores a ocupantes, a Síria, a Palestina, o Afeganistão, as matizes do mundo árabe, a ligeireza com que falamos e escrevemos sobre o Islão sem sabermos aquilo de que estamos a falar; são alguns dos temas que pontuam um diálogo sobre guerras e formas de as contar, onde sobressaem histórias, dramas, relatos de generosidade e pontos de vista. Tudo arrumado em cinco capítulos que correspondem aos 5 W do jornalismo – Quem, o Quê, Quando, Onde e Porquê –, os mesmos 5 W da colecção, do nome do colectivo editorial e do título da revista que edita.


O uso da religião, as mudanças no terrorismo que conduziram ao “terror ‘democratizado’, que pode tocar a qualquer um”, são outras dimensões da visão panorâmica proporcionada pelo diálogo entre Ramón Lobo, que se distinguiu no El País com histórias que seduziram outros para a aprendizagem do ofício jornalístico, até ser despedido em nome de uma lógica contabilística em que “te medem pelo que custas e não pelo que vales”; e Mikel Ayesteran, freelance que conseguiu “romper o ciclo do pessimismo” que se abateu sobre a sua geração, com uma destreza que, nas palavras do companheiro de profissão, o tornaram, como a outros repórteres dos novos tempos, uma “unidade móvel humana”.


A conversa é também uma denúncia, denúncia de um jornalismo que distingue entre guerras de primeira e de segunda – “É incrível o pouco que sabemos de África, por exemplo. Da América Latina, só nos chega a Venezuela” (Mikel) – e de práticas de terra queimada, como acontece quando um repórter irrompe por um hospital e em vez de pedir licença desata a fotografar “a torto e a direito” (Ramón). As palavras dos dois jornalistas servem também como manifesto contra o esquecimento das “histórias em profundidade” e o mimetismo estimulado por chefes que “estão a ver a BBC e te dizem o que escrever”. “Se todos escrevemos o mesmo, como raio vamos vender jornais?” (novamente Ramón).


O interesse maior destes diálogos para pensar de Guerras de ayer e de hoy está tanto nas respostas como nas perguntas que deixa, ou permite formular. Uma delas poderia ser: afinal o jornalismo pode mudar alguma coisa? Um “sim” talvez possa ser dado com uma passagem das palavras de Ramón Lobo, quando lembra que os textos devem “deixar uma porta aberta para o que leitor tire uma conclusão diferente da tua”. 


Parece coisa pouca, mas quando isso acontece o jornalismo, o bom jornalismo, já está a mudar alguma coisa.