por Livia Apa

Nasceu em Nápoles. É investigadora, com  trabalho na área dos estudos culturais dos países de língua oficial portuguesa. É também tradutora, tendo publicado em italiano, entre outros, Mia Couto, Ondjaki, Ruy Duarte de Carvalho, Mário Cesariny, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Tavares. Faz parte da direcção do Archivio Memorie Migranti de Roma. Colabora com a revista Gli Asini de Roma.

No dia 17 de Março de 2016, o escritor congolês Alain Mabanckou proferiu uma aula magistral em qualidade de professor convidado no Collège de France. O título escolhido foi Lettres noires: des ténèbres à la lumière, que, na altura, suscitou não poucas polémicas mas foi, ao mesmo tempo um grande sucesso em termos de audiência. No mês de Maio do mesmo ano, Mabanckou organizou em Paris o debate Penser et écrire l’Afrique aujour’hui convidando algumas das vozes mais representativas da mais recente e inovadora reflexão sobre o continente africano, cujos textos foram reunidos recentemente num livro com o mesmo titulo. O que une todos os textos é a tentativa de tecer um saber transdisciplinar sobre o continente africano, capaz de trazer uma reflexão teórica que possibilite a renovação também da relação entre a antiga Metrópole e o seu outrora espaço ultramarino, já que todas as contribuições presentes no volume vêm de pensadores e criadores francófonos. Na introdução ao volume, Mabanckou parte da relação, não pouco perversa, entre centro e periferias que habitam a mesma língua, frisando a urgência de ela ser re-pensada depois da rotura operada pelo nascimento da negritude, pelos movimentos anti-coloniais e pelas independências, declarando que a atenção demonstrada no debate pelo público francês, mostra que há uma necessidade realmente sentida que perpassa a dificuldade de parte da política francesa em lidar com a mudança de paradigma que a história soube impor.


O livro é uma colecção de ensaios muito diferentes entre si por forma e inspiração. Os autores são intelectuais e criadores francófonos, destacando-se, entre eles, figuras mais consagradas como Achille Mbembe, Françoise Vergès, Souleymane Bachir Diagne, Lydie Moudileno, que se debruçam sobre vários temas focados a partir exatamente de um possível e renovado diálogo entre disciplinas e saberes, tendo sempre em conta a urgência de libertar possíveis representações do continente que foram formuladas exogenamente contribuindo para construir uma ideia de África sem tempo, eternamente outra de um Ocidente, por sua vez, visto como categoria universal mais do que como projecto em construção.


O livro divide-se em duas secções. Na primeira Penser,  Achille Mbembe no seu texto L’Afrique que vient, refere-se ao conceito de fronteira como negação do direito de circulação e de como ela se torna o paradigma iníquo de uma ideia de democracia deficitária.  Na mesma linha, coloca-se a reflexão do economista Célestin Monga sobre aquilo que define como a fétichisation des frontièrs, avisando que tal processo existe também na tentativa de promover um cosmopolitismo eventualmente capaz de superar a clássica dicotomia entre universalismo e relativismo. Suleymane Bachir Diagne, no seu ensaio Penser de langue a langue, apresenta uma esmerada reflexão sobre o paradigma tradutivo em África, entendida também como expressão da falta de reciprocidade de saberes instituída durante o colonialismo. Faz de contraponto a estas reflexões um texto do historiador francês Pascal Blanchard sobre a construção dos imaginários coloniais. A segunda secção – Écrir – abre-se com um texto introdutivo sobre práticas literárias escritas da autoria de Lydie Moudileno que desloca a questão da representação do continente africano para a voz dos seus próprios autores. Fazem parte da mesma secção textos de escritores consagrados como Abdourahman Waberi ou Sami Tchak, que oferecem um importante testemunho sobre a tarefa de contar o continente. Provavelmente é na polifonia de obras como esta que se começa a contruir um possível processo de lento reequilíbrio entre saberes entre mundos que nem sempre conseguiram comunicar.