por Livia Apa

Nasceu em Nápoles. É investigadora, com  trabalho na área dos estudos culturais dos países de língua oficial portuguesa. É também tradutora, tendo publicado em italiano, entre outros, Mia Couto, Ondjaki, Ruy Duarte de Carvalho, Mário Cesariny, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Tavares. Faz parte da direcção do Archivio Memorie Migranti de Roma. Colabora com a revista Gli Asini de Roma.

Afrotopia é uma obra que tem como objectivo, por admissão do seu próprio autor, o economista senegalês Felwine Sarr, criar uma utopia activa que parte do continente africano, capaz de superar, por um lado, o afro-pessimismo e, por outro, também de fugir de uma recente narrativa afro-otimista que vê o continente africano como um novo espaço de oportunidades e futuro.


Afrotopia é um projecto: o de promover uma reflexão endógena à volta do futuro político, económico, social e cultural de uma África capaz de ser metáfora do seu projecto de futuro. Trata-se de um processo de construção intelectual que se baseia numa necessária e renovada obra de conceptua-lização do paradigma teórico, através do qual olhar para um continente que foi durante séculos uma espécie de fantasma que ajudou a construir uma complexa relação com o Ocidente apenas através de um paradigma de alteridade não inclusiva. Faz parte dessa afro-utopia a retoma de alguns dos pressupostos caros aos pais da négritude, passando pela lição de Édouard Glissant e do pensamento anti-colonial, encarados como a necessidade de um regresso a uma reflexão de dimensão continental enquanto possível contra-narrativa do facto colonial que levou, vice-versa, a uma fragmentação forçada da geografia africana também do ponto de vista cultural.


No livro o autor demonstra como a independência formal dos países africanos, mesmo sendo um primeiro e importante passo, fundamental e imprescindível também, não teve os resultados esperados e que hoje assistimos, regra geral, a um empasse devido, em primeiro lugar, a uma ideia de desenvolvimento aplicada através de soluções prêt-à-porter, que pouco ou nada tem a ver com a sócio-cultura das jovens nações independentes. A questão da promoção de uma nova ideia de desenvolvimento, portanto, torna-se, por Felwine Sarr, uma questão também cultural.


No entender do autor, não se pode prescindir de uma atenta observação da realidade onde as pessoas vivem todos os dias, e por isso mesmo, uma verdadeira mudança de passo apenas se poderá realizar tentando sair dos padrões de crescimento económico impostos por governos incapazes de dialogar com a cultura das geografias de que são expressão. Muitos dos temas sobre os quais Sarr se debruça no livro, como por exemplo a complexa relação entre tradição e modernidade ou sobre a ideia de progresso e a complexa tensão entre o local e o global e a ideia de colonial e de pós.


O fil rouge que me parece atravessar este ensaio, escrito de uma forma que abre para uma construção textual quase literária, é uma premente necessidade de re-situar os termos do debate dentro de coordenadas que partam de uma valorização do património vivencial de quem habita o continente. Para perseguir este objectivo, indica-nos Sarr, é necessário descolonizar o olhar dos que deveriam participar no projecto de construção de novas formas de cidadania no continente, a partir das quais vai ser possível definir estratégias e caminhos que possam garantir um mais amplo acesso aos recursos para todos os cidadãos, colocando assim o continente africano num diálogo finalmente não subalterno a nível planetário.