por Livia Apa

Nasceu em Nápoles. É investigadora, com
trabalho na área dos estudos culturais dos
países de língua oficial portuguesa. É também
tradutora, tendo publicado em italiano, entre
outros, Mia Couto, Ondjaki, Ruy Duarte de
Carvalho, Mário Cesariny, Ana Luísa Amaral,
Ana Paula Tavares. Faz parte da direcção do
Archivio Memorie Migranti de Roma. Colabora
com a revista Gli Asini de Roma.

Em África, os quatro rios – A representação de África através da literatura
europeia e norte-americana (1958-2002), 
António Pinto Ribeiro, recorrendo à
obra de quatro autores contemporâneos que viajam tocando quatro rios
africanos – o Níger, o Zambeze, o Nilo e o Congo – apresenta ao leitor uma fecunda e ampla reflexão sobre literatura de viagens enquanto género literário em si, mas também, e sobretudo, enquanto lente através da qual o Ocidente construiu, e em parte ainda constrói, a sua leitura do continente. Partindo de uma análise da evolução do género a partir do século XVIII, as páginas do volume acompanham-nos
através dos muitos olhares construídos sobre África, apresentando sugestões
e leituras de autores como o canónico Joseph Conrad de Heart of Darkness, ou
Jules Verne, ou ainda Paul Bowles e alguns representantes da “Beat Generation”,
chegando a “viajantes profissionais” como Bruce Chatwin. Trata-se de olhares completamente diferentes entre si, mas que contribuíram para criar um cânone de leitura à volta do que é África, mais ou menos exótica e que, juntamente à narrativa criada pela etnografia clássica e colonial, demora a ser desconstruído. O papel do pensamento antropológico, a começar por Michel Leiris, torna-se fundamental
para repensar a relação entre mundos diferentes e ao considerar tal disciplina
enquanto forma narrativa, o autor consegue desenhar um quadro mais
abrangente das epistemologias construídas sobre o continente até hoje. O núcleo duro do livro é representado pela análise de quatro obras de autores ocidentais e brancos. Trata-se de Heban de Ryszard Kapuscinski (1998), Avventure in Africa de Gianni Celati (1998) Dark Star Safari de Paul Theroux (2002) e Baía dos Tigres de Pedro Rosa Mendes (1999). Propõe-se então uma reflexão sobre as estratégias de
representação do continente, tentando visar como em cada livro quem escreve
se confronta com o horizonte do pós-independência, detetando possíveis fraturas e continuidades no quotidiano das pessoas que naqueles espaços hoje vivem, novos e velhos atores, sem ceder a nenhum posicionamento nostálgico. Mas o objetivo do trabalho de António Pinto Ribeiro parece-me situar-se a outro nível, o das estratégias de representação. Os autores escolhidos, revelando uma empatia
apriorística com a realidade que os rodeia, tentam eliminar a distância a partir da qual observam mundos fatalmente diferentes, mas abrem para a possibilidade de repensar através de momentos de profunda autodefinição de si próprios a sua reflexão sobre o outro. Essa mise en cause, mesmo não constituindo um ponto de chegada, marca uma mudança de passo que me parece fulcral, exatamente porque
abre para uma relação entre sujeitos e objetos de formas narrativas que tenta renovar-se e inscrever-se finalmente noutro espaço epistemológico.


Na última parte do livro, o autor fornece-nos algumas pistas teóricas que ajudam a repensar a relação entre mundos. Ao chamar à atenção para o facto que raramente os africanos escrevem sobre viagens, no sentido de atravessamento físico de  espaços, o autor realça, porém, a importância do contributo das diásporas que redefinirão num próximo futuro as relações de força entre eles, África e a própria
epistemologia europeia, saindo assim de um jogo feito apenas de contraposição,
recorrendo aos múltiplos saberes de que se compõe o mundo global. O afro-futurismo, pela sua natureza híbrida e compósita, é um dos caminhos a perseguir.