Rita  Colaço

Nasceu em Mação em 1979. Cresceu no meio de rádios-piratas, mas licenciou-se em Geografia e Planeamento Regional, na Universidade Nova em Lisboa. Em 2001, fez o Curso de Especialização em Jornalismo, no CENJOR. Na Antena 1 desde 2003, actualmente é coordenadora do programa Grande Reportagem. Já recebeu duas vezes o Prémio Gazeta de Rádio e esteve nomeada para o Prix Europa, com a grande reportagem “Jamaika também é Portugal”.

O presidente está à porta de Adelaide, mas não chega a entrar.

 

Está colado na fachada cor-de-rosa o rosto de Evaristo Carvalho, presidente de São Tomé e Príncipe. Em 2017, pela primeira vez, um chefe de Estado ousou entrar num bairro que nasceu clandestino há 30 anos. Para os moradores é o Bairro da Jamaika. Com “k”, do graffiti pintado num muro que isola o lugar. Oficialmente, chama-se Vale de Chícharos. Fica no Seixal, às portas de Lisboa.

 

A cama de Adelaide não tem andar certo. Depende da chuva. Pode ser na cave, aberta ao frio. Pode ser no rés-do-chão, quando a cave inunda com os excrementos da fossa entupida dos vizinhos.

 

“Eu luto muito para ter isso. Vê? A água vem por aqui, até aqui.”

 

Adelaide, 56 anos, divide casa com a humidade, os mosquitos, os ratos, as baratas e com o filho Fred, de 37 anos, que tem convulsões quase diárias desde que em pequeno foi vítima de malária cerebral. Enquanto Adelaide viver, tem de viver para este filho. “Mãe, Deus dá paciência. Paciência mesmo. Até a mãe morrer fica com paciência com os filhos”.


Foi por Fred que Adelaide veio há 20 anos para Portugal, ao abrigo de um protocolo de cooperação na área da saúde entre o Estado Português e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Mas hoje está entregue à sorte.


A cave de Adelaide tem duas janelas: uma no quarto, que mal se fecha com a ajuda de um ferro; outra na sala que é um buraco aberto à chuva e ao frio. É por isso que, de vez em quando, dorme aqui em cima, no rés-do-chão. Um antigo pátio que hoje é um café improvisado com telhado de zinco. Adelaide serve bebidas, frango e banana-pão frita “de jeito para ganhar mais um pão” já que recebe quase nada desde que há cinco anos foi obrigada a deixar o emprego de cozinheira para cuidar do filho.


Adelaide vive numa casa que não é dela. Nem legalmente uma casa é.


No bairro da Jamaika vivem 1300 pessoas, mas o número tem sido variável ao longo dos anos.

A maioria tem berço em São Tomé e Príncipe, mas também há angolanos, guineenses, cabo-verdianos e portugueses. Vivem em prédios de sete, cinco, seis andares. A altura vai crescendo à medida das necessidades.


Vale de Chícharos era uma quinta com vinha e árvores de frutos, onde viveu o artista plástico Manuel Cargaleiro durante 15 anos. No final da década de 1970, o empreiteiro Fernando Cardoso comprou os terrenos e começou a construir o que seria um conjunto de nove prédios e mais algumas vivendas, mas acabou por abrir falência no final dos anos de 1980. No lugar, sobraram esqueletos de betão.

 

Logo depois, vários imigrantes começaram a ocupar a zona, sobretudo africanos vindos das ex-colónias. Ergueram paredes e pisos de tijolos por entre os pilares adormecidos. Fizeram puxadas de luz, de água e usaram as caves como fossas.


O bairro tem vista para casas desenhadas a régua e esquadro, mas os vizinhos não se misturam e chamam a polícia quando a música no Jamaika se prolonga até tarde.


Muitos serviços de telecomunicações ou mesmo de entregas de compras também se recusam a entrar no bairro.


“Por quê? Por sermos pretos? É por isso?” Dumas tem 28 anos e formou-se em Engenharia Eletrotécnica no Instituto Politécnico de Setúbal. Veio de Angola viver para Portugal com o pai quando tinha apenas 10 anos. Chegado à faculdade, estranharam-lhe a presença pelas longas rastas: «Como é que tu com esse cabelo conseguiste vir para a faculdade?»

 

Vivem assim no Jamaika. Numa geografia de indiferença, arredados da vizinhança e de uma luta de bastidores que desconhecem.

Durante 30 anos, o bairro de Vale de Chícharos esteve refém de um jogo do empurra que se consegue resumir num parágrafo. Os terrenos do Jamaika têm um dono – a construtora Urbangol – que alega não conseguir tomar posse efectiva do lugar e avançar com um projecto de 170
fogos de luxo, enquanto a zona estiver ocupada. A Urbangol alega que o realojamento dos moradores do Jamaika tem de ser feito pela autarquia do Seixal. A autarquia do Seixal alega que essa é uma competência da Urbangol e do governo. O governo central advoga não ingerência autárquica e a câmara sublinha que não pode assumir toda a responsabilidade sobre a habitação.

E vai-se ouvindo no bairro “Jamaika… Jamaika é uma fonte de miséria e de riqueza ao mesmo tempo. Ou seja, miséria para os que vivem cá e uma fartura para os que não vivem cá e que vivem do bairro.”


Entre promessas adiadas ou mesmo evitadas, Vale de Chícharos foi-se tornando num dos maiores núcleos habitacionais precários de Portugal.

 

Os prédios de tijolo à mostra foram ganhando cada vez mais andares e as varandas foram vestindo a pele de divisões. O risco de colapso sobre 1300 vidas só fez soar a campainha em 2017, quando o governo e a Câmara Municipal do Seixal anunciaram, finalmente, um plano de realojamento para 234 famílias, que só deverá estar concluído em 2022.


Podia ser um final feliz, mas ao raiar de um novo ano - 2019 - Jamaika voltou às primeiras páginas depois de cenas de violência entre moradores e a polícia, captadas por um telemóvel a partir de uma janela do bairro e tudo parece resumir-se, novamente, a um dia. Domingo de manhã.

Já passa da hora de almoço, mas hoje o sol ficou-se por Lisboa e esqueceu-se de atravessar a ponte em direcção ao Seixal. O bairro da Jamaika ainda é nevoeiro e por hoje assim há de ficar.

Susana André

Jornalista da SIC há 23 anos. Foi pivot na SIC Notícias e esteve 10 anos na Grande Reportagem até integrar a editoria de internacional. Na última década fez grandes reportagens em Gaza, Angola, Venezuela, Turquia e Etiópia. Venceu vários prémios de jornalismo, sobretudo na área dos Direitos Humanos. Em 2017, recebeu o prémio “Cáceres Monteiro” por uma trilogia de grandes reportagens sobre Angola.

Addisalem não sabe quem abraçar primeiro. Dois braços não chegam para abarcar as duas filhas, a mulher e o neto que nunca viu. Passaram 18 anos desde o dia em que o jornalista etíope chegou a casa, no final de um dia de trabalho, e a encontrou vazia. Só dias mais tarde recebeu a carta que Nitsilam
lhe escreveu antes de partir, e entregou a uma vizinha.

 

Eritreia com passaporte etíope, a mulher de Addisalem Hadgu escapou às deportações em massa
do final dos anos 1990 provocadas pelo início da guerra entre os dois países. Dois anos de conflito tinham já provocado a morte de milhares de pessoas. Nitsilam Abraha não se sentia segura na Etiópia, mas não o partilhou com o marido. 
Addisalem não podia atravessar a fronteira e nunca as teria deixado partir. Em Fevereiro de 2000 (Fevereiro de 1995, de acordo com o calendário etíope) Nitsilam pegou nas filhas e voltou à casa de infância, na capital da Eritreia.

 

Addisalem diz que viveu 16 anos na escuridão. Não podia sequer sonhar com uma carta ou um telefonema. Entre Maio de 1998 e Julho de 2018 a única coisa em comum entre os dois países do corno
de África era a tensão fronteiriça. Não havia ligações aéreas, comunicações telefónicas ou correspondência postal.


No papel, as hostilidades terminaram em Dezembro de 2000 com a assinatura de um acordo de
paz. Mas a Etiópia acabaria por recusar a decisão de um comité internacional que atribuiu à Eritreia
a soberania sobre Badme, a zona no epicentro da guerra. A intransigência dos regimes ditatoriais que
governaram o país nas últimas duas décadas fez alastrar o conflito até Julho de 2018 quando, num gesto histórico, o primeiro-ministro etíope, o reformista Abiy Ahmed, no poder desde Abril, prometeu
cumprir o Tratado de Argel e retirar as tropas da região de Badme.

 

Uma semana depois da assinatura da declaração de paz, o jornalista Addisalem Hadgu era um dos
400 passageiros do primeiro voo directo entre Adis Abeba, a capital da Etiópia, e Asmara, a capital da
Eritreia. “Foi como se me tivesse saído a sorte grande sem comprar bilhete”, disse entre lágrimas o
jornalista da rádio nacional etíope perante as câmaras de televisão que o acompanharam até à casa da família. As filhas, Danayt e Clara, têm agora 30 e 36 anos – uma vida com saudades do pai. Vivem num dos países mais isolados e repressivos do mundo e fizeram ambas o serviço militar, obrigatório para homens e mulheres entre os 18 e os 50 anos. Na Eritreia, o período de recruta, que deveria ser de 18 meses, chega a prolongar-se por mais de 20 anos e a maior parte da população acaba a servir de mão-de-obra em grandiosas obras públicas. No país, sucedem-se as denúncias de mulheres violadas pelas chefias militares.

 

Clara e Danayt trabalham ambas para o Estado – não há muito mais por onde escolher. Há 7 anos, Clara deu a Addisalem um neto que o avô não sabia ter. Com as filhas nos braços e o neto no colo, o jornalista procura palavras. Como resumir num encontro 20 anos de vidas? Nitsilam é a única que controla as lágrimas. Conta que durante anos procurou refúgio na igreja para que as filhas não a
vissem chorar. Agora, diz, “é tempo de sorrir e celebrar”.

 

Desde que as ligações aéreas entre os dois países foram reabertas, há 5 meses, Addisalem já viajou
duas vezes para Asmara. Mas um voo para a capital da Eritreia ronda os 150 euros, pouco menos
que o salário do jornalista na rádio estatal.


Addisalem quer trazer a família para Adis Abeba, mas sabe que a mudança tem custos e riscos. “Os governos dos dois países tinham obrigação de nos apoiar”, defende o jornalista, “afinal estas separações entre famílias foram causadas pela intransigência dos regimes”. Addisalem tem 60 anos
- está a poucos meses de deixar de trabalhar. Se emigrasse agora para a Eritreia perderia o direito
à reforma, por mais pequena que seja (e cujo valor ainda desconhece).


A mulher não trabalha e as filhas têm empregos mal pagos. Addisalem acredita que na capital etíope conseguiriam recomeçar a vida. O país está em crescimento económico e desde que o novo primeiro-ministro chegou ao poder que se respira melhor.

 

Nos muitos cafés de Adis Abeba voltou a falar-se abertamente de política. A acompanhar o macchiato,
herança do curto domínio italiano, no tempo de Mussolini, os etíopes lêem agora jornais que não passariam no crivo da censura. Abyi Ahmed pôs fim ao estado de emergência que durava desde Outubro de 2016 e servia sobretudo para conter protestos populares.

Os jornalistas ironizam e queixam-se de não conseguir acompanhar a velocidade das mudanças. Centenas de prisioneiros políticos foram libertados e dezenas de opositores exilados regressaram ao país. O novo chefe de Estado demitiu ainda o poderoso chefe das prisões, onde a tortura era uma prática quotidiana. Abyi Ahmed promete abrir a Etiópia ao investimento estrangeiro e criar empregos. Adorado pela maioria, o primeiro-ministro tem a imagem estampada em t-shirts e posters que ornamentam táxis e tuk-tuks de Norte a Sul do país.

 

São 10h da manhã em Adis Abeba. Addisalem Hadgu abre o microfone para dar conta do encontro entre o primeiro-ministro etíope e o presidente francês, em Paris, na primeira visita oficial de Abiy à
Europa. As notícias seguem com as declarações de Donald Trump a ameaçar encerrar a fronteira com
o México. O presidente dos EUA pondera enviar militares para a zona, para travar a caravana de migrantes.

 

“Felizmente, o nosso muro caiu”, comenta o jornalista, com o microfone fechado. “Continua a haver centenas de famílias separadas, mas a reabertura das fronteiras já beneficiou muita gente”.


Durante as últimas duas décadas, os cerca de cinco mil cidadãos da Eritreia que todos os meses fogem da miséria e da opressão, rumavam sobretudo à Europa. Uma viagem que obriga a longas caminhadas no deserto até à Líbia e deixa os migrantes à mercê dos traficantes para a perigosa travessia do Mediterrâneo.

Desde que o acordo de paz foi assinado, há cinco meses, muitos eritreus têm optado por um destino mais próximo e seguro - milhares cruzaram já a fronteira da Etiópia em busca de um futuro menos sombrio.

 

Maria João

Guimarães

Jornalista da secção Mundo do Público, onde escreve sobretudo sobre a Alemanha, Grécia, e Israel/Palestina. Recebeu o Prémio de Reportagem Norberto Lopes da Casa da Imprensa para o biénio 2011/2012 com uma série de reportagens sobre a crise grega. Foi escolhida para o programa European Journalist Fellowships da Universidade Livre de Berlim, onde viveu no ano académico de 2015/2016.

Foto: Gaza Sky Geeks

A pergunta que mais fazem a Iyad Altharawi é porque está ele ali. Porque voltou ele para viver na Faixa de Gaza, um pequeno território cercado, de onde é difícil (alguns dirão: quase impossível) sair, onde os bens que entram são restritos, onde há electricidade só quatro horas por dia, quando podia ter ficado no seu emprego em Frankfurt?

Ele não estranha, mas também não desvaloriza as dificuldades, nem para si próprio (“é verdade que às vezes estou encurralado em Gaza”) nem para o trabalho (“trabalhamos num ambiente muito incerto”). Mas desde que regressou, há mais de um ano, nunca se arrependeu.

Iyad veio para trabalhar nos Gaza Sky Geeks, uma incubadora de startups, academia de código, aconselhamento a freelancers e espaço de coworking, um oásis de electricidade, energia e optimismo no meio de Gaza.  

A um sábado às 9h30 da manhã já há uma série de pessoas sentadas na sala comum de coworking, de café e computador à frente. “Não trabalhes duro, trabalha de forma inteligente”, diz um cartaz. 

Fazer muito com pouco

A Internet é uma das infraestruturas boas de Gaza, o território tem muitos jovens qualificados. O programa Gaza Sky Geeks (GSG) começou em 2011, com financiamento da organização de ajuda dos EUA Mercy Corps e da Google, para aumentar o conhecimento de tecnologia, e foi tendo cada vez mais ofertas e programas. 

Iyad, responsável pelo programa de incubação e aceleração, explica que Gaza tem potencial de se tornar um exportador de trabalho na área como é a Índia. A dificuldade em trabalhar com hardware pelas limitações de entrada de materiais também leva a que a maior parte das pessoas da área se dediquem antes ao software.

E com os GSG a conseguirem ter pessoas a participar em competições internacionais e ganhar prémios, Iyad garante: “Tenho a certeza que lá fora somos conhecidos pelo nosso trabalho.”

Mas nem tudo o que é virtual funciona só em meio virtual. Os financiadores “não investem em ideias”, diz Iyad, querem sim “conhecer as pessoas, ver como trabalham”. O Skype não chega.

O ritmo das autorizações de Israel é muito mais lento do que o das oportunidades que há fora. E do Egipto é ainda mais incerto. Os dois países bloqueiam o território invocando razões de segurança; organizações de defesa dos direitos humanos dizem que é “castigo colectivo”.

Outro problema é a falta de opções de pagamentos: o PayPal, sistema quase universal, não opera na Palestina.

Por isto e por tudo o resto, explica Sara Alafifi, do programa de mentores, é que aqui estão “os empreendedores mais duros” do mundo. Porque estão habituados a trabalhar num local onde tudo pode acontecer, a contornar todos os imprevistos, a encontrar uma solução para todos os problemas. O chavão de não haver dificuldades e sim desafios a superar é verdadeiro aqui, todos os dias.

Mulheres na liderança

Sara nota que em todo o mundo as mulheres trabalham mais e em Gaza ainda mais. Mas aqui “se há coisa que não há, é falta de ajuda para mulheres”, sublinha. Elas são 53% em todos os programas, e a percentagem sobe na parte das startups: 58% são fundadoras ou parte das equipas.

Os casos de maior sucesso saído dos GSG são startups de mulheres — como a MomyHelper de Nour Abuzaher, que obteve o segundo lugar numa competição de startups em Istambul e financiamento de uma business angel (como são chamados investidores relativamente pequenos) do Dubai.

Nour teve a ideia para um serviço de aconselhamento de mães árabes depois de ser mãe. “Morava fora de Gaza, longe da família, e não sabia lidar com o meu bebé”, conta. Começou a partilhar no Facebook algumas ideias para o seu “pequenino” (hoje com três anos). Recebeu muitas mensagens de mães a pedir a sua opinião para dificuldades e problemas. “Eu não podia responder, não sou especialista”, nota. Percebeu que havia ali uma necessidade. Leu que as mães árabes têm uma percentagem de depressão alta. E que apesar de haver rede e de apoio familiar, o mundo já não é o mesmo do da sua mãe e avó.

Começou a trabalhar numa aplicação para aconselhamento profissional fácil e discreto — telefónico, sem imagem, o que é importante sobretudo se o especialista for um homem. Foca-se no mercado do Médio Oriente e Norte de África, mas mesmo sem ter esse mercado como target, tem utilizadoras da Alemanha ou Áustria.

Sara Alafifi sublinha a parte direccionada para as mulheres. “Algumas das visitantes internacionais ficam espantadas e dizem que aqui é melhor para as mulheres do que em Silicon Valley”, diz Sara. “Os homens é que às vezes acham que estão a ser discriminados.”

*este artigo é uma adaptação de um excerto da reportagem publicada no suplemento P2 do Público de 27.5.2018

Foto: Vanessa Rodrigues

Vanessa Rodrigues

Jornalista independente, realizadora de documentários, escritora e investigadora. A memória, a condição humana, a justiça social e a cultura são temas recorrentes
nos seus trabalhos, cruzando várias linguagens artísticas. É doutoranda em Estudos em Comunicação para o Desenvolvimento na Universidade Lusófona do Porto, onde leciona. Tem trabalhos publicados no DN, NM, TSF, Visão, Público, Sol, Expresso.

O táxi demora 30 minutos a chegar até à Avenida do Trabalho, n.º 736, desde o início da Avenida Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique. “Estamos em frente ao mercado da Malanga, ao lado da Padaria Bijou”, escreve por mensagem Ruy Santos, 44 anos, mentor da plataforma colaborativa solidária Makobo. Os projetos solidários? Sopa, Escolinha, Parquinho, acompanhamento lúdico-pedagógico a crianças e mães internadas em enfermarias de Pediatria, merenda escolar, artesanato sustentável, padaria, campanha diga não à mendicidade, formação para hortas familiares. São 10h30 e o portão de ferro do armazém onde fica o escritório desta empresa social, aliás a primeira com esta denominação em Moçambique, está fechado. Não há ainda enquadramento jurídico para negócios desta natureza. Os muros desta casa branca são altos e tem arame no topo. Estão aqui desde 2014.  Ruy chega de carro. O portão abre-se e este arquiteto de formação, natural da ilha de Moçambique, salta as formalidades. “Se tivéssemos chegado mais cedo ainda as teríamos visto a preparar a merenda escolar, mas a carrinha já saiu”, explica, mencionando um dos muitos projetos da Makobo (que significa banana nas língua moçambicana chimanca).

 

“Chateava toda a gente no Facebook a não ficar indiferente”

A semente para esta empresa - que hoje emprega nove pessoas, conta com 37 voluntários e dezenas de parceiros-, começou a ser plantada em 2005, quando Ruy Santos regressa a Moçambique depois de uma temporada a trabalhar e a estudar Arquitetura, Design e Artes em Portugal. Nessa altura, queria transformar o artesanato moçambicano numa “lógica funcional para gerar rendimentos”. Começou por trabalhar num projeto de artesanato em Xai Xai, mas “que não tinha nenhuma relação com a comunidade local”. Depois, “não fixava os jovens nas comunidades”. Esta experiência deu-lhe a oportunidade, no entanto, de viajar e conhecer a realidade de Moçambique. Percebeu que tinha de fazer algo. Criou a Makobo “como extensão desse conceito”, envolvendo as comunidades. Entretanto, foi convidado para trabalhar na Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo, a FEIMA. E esse foi um confronto com a precariedade do artesanato no país. “A maioria dos artesãos não tinha literacia suficiente para fazer o negócio”, reforça. De manhã o produto tinha um valor, ao final do dia, outro muito mais baixo. “O objetivo era ter dinheiro para comer.” Constatou que tinha de trabalhar com os jovens, formando de base. “Comecei a chatear toda a gente no Facebook a não ficar indiferente e começam a surgir ideias com uma lógica solidária, para criar impacto e mudança sociais”. O artesanato foi uma delas. Hoje, em parcerias com artesãs, artesãos e o projeto Mezimbite, na Beira, criaram uma loja online, mobilizado pela Makobo.

 

“Mais do que um projeto social: da literacia à nutrição”

Para Ruy, a Makobo é mais do que uma plataforma colaborativa solidária. “Nós criamos pontes de transformação, com transferência de tecnologia, através da educação para a cidadania, educação alimentar, literacia, para combater o analfabetismo, a desnutrição e o desemprego jovem”, realça. Na área de Literacia e Alfabetização desenvolvem a escolinha solidária, no Bairro dos Pescadores, Costa do Sol, que funciona às terças e às quintas-feiras, para crianças da primeira à oitava classes do ensino público. É, ainda, um espaço ocupacional, com jogos e outras brincadeiras, resgatando os valores familiares e comunitários tradicionais.

Moçambique tem cerca 28,8 milhões de habitantes com graves problemas de desnutrição. “Isso significa que o desenvolvimento cognitivo está comprometido, logo não vamos ser capazes de ter adultos com capacidade intelectual”, reflete Ruy Santos, para reforçar a missão da plataforma solidária. “Temos primeiro de ensinar as pessoas a comer e a extrair o melhor dos nutrientes.” A Sopa Solidária surge para atender essa necessidade. Por dia, servem cerca de 400 sopas, beneficiando, semanalmente, cerca de duas mil pessoas, principalmente idosos e crianças, garantindo que estes tenham, pelo menos, uma refeição condigna por dia. Além disso, a Makobo promove a merenda escolar, apoiando diariamente crianças e jovens carenciados, dos 3 aos 17 anos de idade, residentes em bairros degradados e a frequentarem o ensino público. Tem sopa, pão, água, fruta ou salada de fruta e, em contrapartida, os pais e os educadores têm de plantar uma árvore de fruta, uma árvore de sombra, uma moringa e um canteiro de hortícolas e ou vegetais. “Precisamos de incentivar a produção, como forma de, ao longo do tempo, melhorar a sua alimentação e, por outro lado, para que eles tenham capacidade de incrementar o trabalho nas suas hortas e irmos para um nível em que eles sejam capazes de comercializar.” O objetivo é chegar a 2020 a beneficiar um milhão de crianças em todo o país. “Como Moçambique não é autosuficente a nível alimentar, precisamos de incentivar a produção local, porque a solidariedade tem de ser sustentável a todos os níveis.”

Francisca Gorjão Henriques

Licenciada em Ciências de Comunicação e pós-graduada em Jornalismo de Política Internacional. Trabalhou 20 anos no Público. Deixou o jornal para se dedicar à Associação Pão a Pão, que desenvolveu um modelo de integração pioneiro em Portugal criando o restaurante Mezze, que dá formação e emprego a refugiados do Médio Oriente. Mas não abandonou o jornalismo. É agora freelance, para além de presidente da Pão a Pão.

Antes de chegar a Portugal, a Fatima nunca tinha trabalhado. Isto é, tinha trabalhado e muito à volta do fogão, cozinhando para o marido e cinco filhos, depois para os netos. A guerra mudou muitas coisas na sua vida, e mudou isso também.

O marido da Fatima até tinha um restaurante em Damasco, mas ela sempre ficara em casa, a cuidar da família, tal como tinha feito a sua mãe. Aliás, até casar, a Fatima nunca tinha sido obrigada a cozinhar. Mas é como diz: “Todas as pessoas na Síria sabem cozinhar. Ninguém nasce sem saber”.

Quando a guerra a tornou precocemente viúva, em 2013, Fatima decidiu fugir da Síria, levando filhos e netos. Primeiro passou pela Jordânia, depois Egipto. Finalmente, e quase por acaso, Portugal. Pela primeira vez, esta mãe de família sentiu que teria de ser ela a levar dinheiro para casa. Mas como, se não tinha qualquer experiência profissional? Quem lhe daria emprego se nem currículo tinha?

Foi para mulheres como a Fatima que o Mezze foi criado. Mulheres e jovens, como o Adam, que fugiu do Iraque sem ter conseguido terminar o curso de Medicina, porque a guerra tornou Mossul num lugar sem futuro. A ideia foi precisamente aproveitar esta herança que a Fatima e tantas mulheres como ela trarão sempre consigo, para onde quer que vão – saber cozinhar – e fazer disso o ponto de encontro com a sua nova comunidade.

Criámos a Associação Pão a Pão – a Alaa Al Hariri, a Rita Melo, o Nuno Mesquita e eu – para fazer acontecer o Mezze, um restaurante que dá formação e emprego a refugiados do Médio Oriente. Mas o Mezze faz muito mais do que servir refeições: põe pessoas em contacto e em partilha. Essa é também a razão pela qual fazemos workshops e promovemos debates. Só assim, com aproximação e conhecimento mútuo, a integração se pode fazer de forma mais plena.

Até agora, cerca de 1400 refugiados chegaram a Portugal ao abrigo do programa de recolocação. A Europa estava a fechar-lhes a porta na cara, mas muitos portugueses quiseram estender-lhes os braços. Formaram-se grupos para participar no acolhimento, garantir que havia casas, roupas, vagas nas escolas, aulas de português. Mas, e depois? O que acontece quando terminam esses primeiros 18 meses de apoio? A proposta da Associação Pão a Pão também responde a isso.

A ideia tornou-se projecto depois de várias conversas esclarecedoras com pessoas que trabalham com refugiados, depois de quadros e planos de negócio, depois de tanta gente ter dito que era uma excelente ideia e, portanto, já não haver volta atrás. Batemos a todas as portas de que nos lembrámos: empresas, instituições, entidades como a Câmara Municipal de Lisboa e o Alto Comissariado para as Migrações...

Activámos todas as nossas redes. Foi um ano e meio de mão estendida, com um pitch (como se diz na gíria do empreendedorismo) sempre na ponta da língua para envolver irremediavelmente todos os que cruzavam o nosso caminho (e foram muitos, e muito generosos). Quisemos ter a certeza de que quando abríssemos as portas, a nossa equipa saberia já as regras do jogo, e por isso estabelecemos uma parceria com o Turismo de Portugal, para um curso de um mês na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. Também recorremos a consultores, como cozinheiros (José Avillez deu uma mão; Luís Barradas e Paulo Matias fazem ainda um acompanhamento semanal). Pedimos ainda ao João Catarino que nos ilustrasse os menus, ao Marco Sousa Santos que desenhasse mesas e cadeiras, à SIA que nos fizesse o projecto de arquitectura... Outros deram o tecto, o chão, tijolos, livros, panelas... Houve ainda uma campanha de crowdfunding. E com a ajuda de muitos, o Mezze tornou-se num espaço de todos.

Começámos por empregar 10 refugiados, vamos agora em 15, todos da Síria à excepção do Yasser, iraquiano, e da Serenah, palestiniana (serão mais quando replicarmos o projecto noutras cidades do país, como pretendemos fazer). E somos já auto-sustentáveis.

Isto não significa que os percalços não tenham estado lá. Houve dificuldades, umas mais inesperadas que outras. Por exemplo: fazer a equipa entender que é mesmo necessário descontar parte do salário para segurança social e impostos. Explicar que para os portugueses é importante acompanhar a refeição com vinho. Ajustar horários e férias, porque no Ramadão, para além do jejum, o tempo dedicado à reza e à família alarga-se substancialmente. Isto, sempre com tradução e comunicações perdidas no processo, porque a maioria ainda pouco fala português.

Hoje, quem entrar no Mezze não dá de caras com um projecto social, mas com um restaurante que é, acima de tudo, um espaço de dignidade. O espaço da dignidade que estas pessoas nunca perderam.

Nas vésperas de abrirmos, quando já estava tudo pintado, mobiliário a postos, equipamento ligado, a Fatima (que pela sua experiência e mão excepcional foi escolhida como chef) entrou no Mezze, olhou atentamente à sua volta e disse: “Esta é a minha segunda casa”.

Foto: Mezze

Chris Elliott

É actualmente director do Ethical Journalism Network. Entre 2010 e Março de 2016, foi provedor do leitor do The Guardian e editor no mesmo jornal em 2000. Foi ainda correspondente de assuntos internos do Sunday Telegraph, chefe de redacção no Sunday Correspondent e editor assistente no Times. As suas áreas de interesse são a autoregulação dos media, direito da comunicação, diversidade e formação.

Foto: Chris Elliott

As violações sistemáticas dos direitos autorais dos jornalistas estão a causar sérios “danos económicos” aos meios de comunicação social no Gana, alertaram editores e jornalistas em Acra, no dia em que se assinalou o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Uma mesa redonda no passado dia 1 de Maio, organizada pelo Ethical Journalism Network (EJN) e a Federação de Jornalistas Africanos (FJA), deu origem à criação de uma campanha de sensibilização pelos direitos de autor e dos jornalistas.

Emmanuel Ebo Hawkson, um jornalista de 27 anos da área da justiça no Daily Graphic em Acra, acredita que as violações dos direitos de autor são uma ameaça real ao seu ganha-pão. Perante a audiência da mesa redonda, que contou com a participação de cerca de 45 jornalistas e editores com larga experiência no jornalismo na África ocidental, Emmanuel contou que, recentemente, era o único repórter no tribunal a assistir à sentença de morte de um jovem pelo assassinato de dois afro-americanos. Poucas horas depois de dar a notícia, o seu exclusivo foi lido palavra a palavra pelas estações de rádio.

“Acordámos às seis da manhã e tudo o que estava na primeira página foi lido nas estações de rádio”, disse. “Então, o que leva as pessoas a comprar o jornal se a rádio lhes dá a notícia toda? [As estações radiofónicas] nem calculam a perda económica que isso representa para os jornais”.

Gabriel Baglo, o secretário-geral da Federação de Jornalistas Africanos, disse que mais de metade dos participantes num encontro recente de jornalistas de oito países da África ocidental “não sabiam nada” sobre direitos de autor. “A questão dos direitos de autor nos media é difícil de abordar em África”, afirmou. “Na era digital, é ainda mais difícil lidar com as questões autorais e os casos de litígio demoram anos (entre 10 a 15 anos) a serem ouvidos e decididos em tribunal”.

“Os direitos de autor são normalmente vistos pelos jornalistas como uma questão que afecta apenas os artistas e os escritores [de ficção]. Os jornalistas não entendem que as suas histórias e produções são criações próprias e que merecem gozar e proteger os direitos relacionados com isso”. Abordar esta questão já vem com muito atrasado, acrescentou.

A sessão da mesa redonda integra o programa, desenvolvido pela EJN e a FJA, para sensibilizar os jornalistas para esta questão no continente africano. Está planeada a produção de um modulo de formação online para criar uma cultura de respeito pelo material protegido por direitos nas redacções. Esse módulo procurará focar-se nos desafios colocados pelas tecnologias digitais e na importância do respeito dos direitos morais e económicos dos criadores de material utilizado pelo trabalho jornalístico.

Korieh Duodu, advogado e especialista em media que trabalha entre Londres e Acra, foi um dos cinco oradores da mesa redonda. Sublinhou que os direitos autorais não são sobre qualidade ou valor, mas sim sobre originalidade de um trabalho. “Os direitos de autor não protegem ideias ou conceitos”, disse. Os jornalistas podem citar o trabalho de outros com base na “utilização justa” ou “negociação justa”, mas devem reconhecer o autor e citar apenas parte do trabalho que seja justificável dentro do contexto.

“Tente pensar em não desvalorizar o trabalho que está a citar”, sugeriu Korieh Duodu. “O reconhecimento é muito importante ... até mesmo um link é importante". A questão tornou-se ainda mais premente na era digital onde os jornalistas muitas vezes acreditam que o seu trabalho é utilizado sem permissão ou atribuição.

Os desafios associados à resolução de disputas relacionadas com direitos de autor foram ilustrados num julgamento importante na África do Sul em 2013, no qual o site de negócios, Moneyweb, processou outro, o Fin24, pelo infringir da lei em sete artigos. O tribunal superior de South Gauteng sentenciou que o Fin24 infringiu os direitos de autor de um artigo do Moneyweb ao copiarem e publicaram uma parte substancial, e ordenaram o pagamento dos danos. Contudo, o tribunal considerou que a lei não foi infringida nos outros seis artigos.

Os jornalistas africanos enfrentam inúmeros desafios de corrupção e de terrorismo e, como resultado, a sensibilização em questões relacionadas com os direitos de autor é essencial. Ajoa Yeboah-Afari, uma antiga e experiente editora em Acra e presidente do Editors’ Forum, contou que estava a preparar umas notas para uma brochura de um funeral e queria incluir um verso pequeno de um poema que tinha encontrado. Pediu então à sobrinha para identificar o poeta. Depois de uma pesquisa na internet, a sobrinha disse-lhe “Tia, não consigo localizar o escritor, ninguém escreveu isso”. Ao qual ela respondeu “Tudo o que lês online foi escrito por alguém”.

“Estamos mesmo a precisar de directrizes”, alertou. “Não nos importamos nada com esses assuntos. Temos um problema com os media eletrónicos. Da maneira mais ousada, [os media electrónicos] fazem uso do trabalho sem darem o devido crédito ou atribuição”.

 

Lúcia Crespo

É editora do suplemento Weekend do Jornal de Negócios. Licenciada em Ciências da Comunicação pela FCSH, estagiou no Público, trabalhou no Diário Digital e na revista Fortunas & Negócios, antes de se juntar ao Negócios. É pós-graduada em Economia Social e Solidária no ISCTE e em Marketing pelo GIEM/ISCTE. Em 2007, recebeu o prémio de jornalismo económico do Santander Totta/Universidade Nova de Lisboa.

Foto: Alain Corbel

Antes de mergulhar os pés na terra vermelha de Bissau, a Guiné-Bissau era, na minha memória emprestada, o país da selva, da guerra e da morte. Não adianta limpar a História, a Guiné-Bissau tem estampado em si o selo de vários conflitos. Mas, postas as minhas mãos naquela terra de muitas cores, o país passou a ser também uma outra coisa. Passou a ser terra com gente dentro. Gente com histórias além da História dos meus manuais. Gente grande. Em Bissau Velho, centro original da cidade, feito em quadrícula, de ruas estreitas e rectilíneas, encontrei pessoas com vidas quase mágicas.


Filomena Barreto é uma delas. Conheci-a como guardadora da Casa dos Direitos, um espaço pintado de azul e branco, que foi albergue da 1.ª esquadra policial de Bissau Velho e é hoje uma casa que salvaguarda direitos e resgata passados, presentes e futuros. Filomena nasceu em Cabo Verde, cantou e fez teatro ambulante com o grupo Korda Skrabu, lutou pelas independências, apaixonou-se e passou a viver em Bissau. Ela tem muitas histórias.  Ela e o seu amor, Adriano Gomes Ferreira, o “Atchutchi”, um dos maiores compositores da música moderna guineense. Era ainda um jovem quando, na década de 1970, se juntou à banda Super Mama Djombo, que tomou o nome do espírito que os guerrilheiros do PAIGC invocavam para sua protecção. Politicamente activa no combate pela independência, a banda era um símbolo da resistência ao colonialismo. “Atchutchi” deu-lhe fôlego e colocou a música guineense em muitas digressões além-fronteiras.


Pelas ruas de Bissau Velho, conheci, no meio de um pequeno castelo cheio de livros, Luiz F. M. Duarte, antigo Despachante Oficial, um senhor de muita idade que de si disse: “Sou o indivíduo mais antigo de Bissau Velho. Sou um africano debaixo de um embondeiro a dizer as verdades”. Luiz nasceu a 6 de Outubro de 1922, na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, em Cabo Verde. Menino de Madragoa, jogou à bola com Amíl-car Cabral. Estudou, trabalhou no Banco Nacional Ultramarino de Cabo Verde e, em 1946, foi transferido para a Guiné-Bissau, país que adoptou na esperança de um dia ver realizado o seu lema de vida: “Trabalho, Criatividade e Risco = Desenvolvimento. É o Trinómio do Progresso”, lia-se numa folha colada na porta do seu castelo de livros de papel.


Bissau também está cheia de gente nova a contar histórias e a fazer História. Como Demba Sanhá, director da televisão comunitária TV Klelé (TVK), iniciativa nascida do Bairro Quelélé para informar e envolver as gentes locais em assuntos como saúde, nutrição e economia familiar. Dinamizada pela Associação para o Desenvolvimento (AD), a TVK foi deixando marcas em diversos bairros, formando vários jovens na área de produção audiovisual. Quando acabam as chuvas, a partir de Novembro, a equipa da TV Klelé percorre terras guineenses para projectar filmes em comunidades mais distantes e garantir o envolvimento de muitos.


A lutar pela comunidade e pelos seus direitos está, também, Cleunismar Silva, a linda Cleo, nascida em terras brasileiras, mas que, tal como Luiz, abraçou a Guiné-Bissau. Conhecia-a enquanto especialista em Género e então coordenadora do “Observatório dos Direitos” da LGDH (Liga Guineense dos Direitos Humanos), ACEP e CEsA. Há muito para fazer neste país onde 79 % da população vive abaixo do limiar nacional de pobreza e 33 % em pobreza extrema, aponta o Banco Mundial. Um país onde os direitos humanos estão longe de estar garantidos. Onde a mutilação genital feminina, ainda que proibida por lei, continua a acontecer. Assim como o casamento precoce e forçado. Sobre tudo isto há estudos e dados, parte deles trabalhados por Cleo.


No terreno, encontra-se Nelinho N’Tanhá, redactor na publicação Nô Pintcha. Quando o conheci, o jornalista estava a fazer uma reportagem sobre o corte de madeira e a consequente destruição de árvores da selva guineense. Nelinho é também professor de português no liceu e fundador do Teatro Experimental de Bissau (TEB), que tem levado à cena peças de autores portugueses e guineenses para promover a língua portuguesa e a cultura bissau--guineense, dentro e fora do país.


Fiquei espantada com a quantidade de pessoas envolvidas com a sua Guiné-Bissau, fiquei encantada com estes fazedores, a tentar dar à sua terra novas cores e a restaurar-lhe antigos tons. Fiquei ainda mais boquiaberta quando, de forma inesperada, conheci alguns homens “maus” que afinal não o são nem nunca foram, são “apenas” os homens que estavam do outro lado da minha História feita das memórias emprestadas. Percebi, que, se calhar, estamos quase todos do mesmo lado da História, narrativa essa que não precisa de ser camuflada, pintada, limpa, mas antes escavada para nos compreendermos um pouco melhor. O que é preciso é cravar as mãos e os pés na terra. Só assim se pode conhecer um país e as suas pessoas. 

Trabalha na Agência Lusa, onde é coordenadora de estágios e formação profissional, mas onde antes trabalhou como repórter cobrindo direitos humanos, igualdade de género, minorias e migrações. Trabalhou no Público, tendo recebido vários prémios por artigos publicados, nomeadamente sobre mutilação genital feminina. É autora dos livros Cicatrizes de Mulher e As Mulheres e a Guerra Colonial. É presidente do Sindicato dos Jornalistas. 

Lisboa, 2017. Nima debruça os olhos sobre as asas do avião e estranha a cor daquela terra, que a vai receber, cheia de esperança num futuro melhor. Não é da mesma cor do chão que sempre pisou, vermelho-sangue, vermelho-alegria. O ar também é diferente, parece mais leve, mais fácil de respirar, mas ela não deixa de sentir a falta da humidade, companheira de vinte anos. 


O avião inicia a descida e ela desfoca os prédios altos, a roçar o céu, para voltar a pairar sobre a tabanca natal, em Bissau, recordando imagens da sua Guiné. Vê o pai, Adulai, fitando a vida, apoiado num cajado, calejado por décadas ao volante de um toca-toca, transporte apinhado de gente, animais, trouxas e o que mais couber, num vaivém diário. Enquanto isso, a mãe, Arassi, vai pilando o arroz, demorada e meticulosamente, bacia de plástico azul entre as pernas musculadas das muitas caminhadas, para ir buscar água, para ir ao mercado. Estão casados vai para 50 anos, mas Adulai tem outras duas mulheres, mais recentes, cada uma com dois filhos, mais pequenos do que Nima e o irmão. 


O imã da mesquita mais próxima, Alcorão que não sabe ler debaixo do braço, passa por eles, cumprimenta-os com um salamaleque. Eles retribuem, respeitosamente. Converteram-se ao islão faz tempo, mandingas que são, mas sem deixarem de lado a devoção aos irãs, habitantes dos poilões sagrados, e ao culto dos antepassados. Quanto mais protegidos, melhor. 


Surge Romi, a vizinha viúva, marido morto no Conflito de 1998/99, guerra civil que se distingue de todos os outros episódios de instabilidade política e militar que se seguiram na Guiné pelo C grande. “Kuma di kurpu?”, como está o corpo, essa coisa onde habita a alma, pergunta-lhe Arassi. “Kurpu sta bon”, responde Romi, anunciando que vai trazer ali uns estrangeiros que querem conhecer Carlos, o irmão de Nima. Mal sai da escola, intermitente como a electricidade, o rapazito de dez anos aproveita as horas de luz solar para fazer brinquedos de lata, jipes, carros, carrinhas, barcos e aviões feitos de vazias latas de Dum Dum, malas de viagem feitas de esferovite, suspensões de arame, telemóveis, animais e pessoas desenhados com chapa. “Quem diria que alguém se interessaria por esta perda de tempo”, resmunga Adulai. “Quem sabe lhe compram alguns e ganhamos uns trocos com a sua habilidade”, pensa Arassi. 

“Quem sabe me levam daqui”, sonha Carlos.


Canforé vem interromper os pensamentos familiares internos. Charuto carcomido entre os dedos, chega, mascando cola, e cumprimenta o seu camarada de armas. Combateu com Adulai ao lado do brigadeiro Ansumane Mané e, desde então, ambos foram desmobilizados, mas ainda aguardam as tão esperadas reinserção e reintegração. Enquanto esperam, vão jogando uri, pedrinha aqui, pedrinha ali. Se calhar, um dia serão chamados para um golpe. Ainda sabem onde esconderam as armas, no meio do mato, denso como só ali.


Romi sai e volta com os brancos. Sofia, a cooperante portuguesa, acaba de conhecer Gabriel, menino órfão, apenas com cabecinha e tronco, que brinca rebolando no chão de um orfanato gerido por missionárias italianas onde tudo falta. Os brinquedos de Carlos dão-lhe ânimo, compra uns quantos para oferecer, tentando preencher o vazio deixado pela impotência que sentiu ao ver Gabriel sorrir. Vive na pensão da dona Berta, cabo-verdiana por nascimento, portuguesa por casamento e guineense por adoração.


Nima consegue ver tão bem as gotas de suor que escorrem de todos os corpos, quando é despertada para o presente: “Senhores passageiros, acabámos de aterrar no Aeroporto Humberto Delgado. Bem-vindos a Lisboa”. O controlo de passaportes é demorado, dá para Nima ensaiar vezes sem conta: “Vim para estudar, vou viver com os meus padrinhos. Não vou trabalhar. Voltarei à Guiné quando acabar o curso”. Passa. Mandam-na parar logo de seguida, querem ver o que traz nas malas coloridas, malaguetas, óleo de palma, mancarra. Nima ainda não sabe que a globalização já trouxe (quase) tudo aquilo a Lisboa. Mas o sabor, esse, não será o mesmo.


Os padrinhos esperam-na, num abraço de ausência prolongada, e Nima sente-se protegida. A viagem até à Quinta do Mocho é rápida, mas os transportes públicos vão torná-la bem mais penosa, diariamente. Nima vai estudar Direito, na Universidade Lusófona. Quer compreender as leis para as melhorar. Acha que algo não está a resultar com as leis em África. Ainda está por estudar como é que a Guiné-Bissau, um país onde tudo é tão frágil, a começar pelo Estado e pelas instituições, deu pessoas são fortes. 


É de noite na Quinta do Mocho e Nima deixa-se vencer pelo cansaço. Quando acorda, espreita por entre as grades da janela do rés-do-chão para o bairro, observando os movimentos dos habitantes que madrugam com o sol. A madrinha pede-lhe que a acompanhe à Feira do Relógio, muitos mundos num só espaço, babel de línguas e preços de saldo. Nima sorri, recordando a animação da Féra di Praça, em Bissau. Sente-se em casa.


No regresso, carregadas de compras, decidem apanhar um táxi. Passam vários, sem parar. A luz verde não é de livre? Alguns abrandam, mas seguem. Um quase pára, abre a janela e lança: “Vai para a tua terra, preta!”. Nima tem vontade de chorar. Como ousava aquele desconhecido pensar que ela tinha deixado a sua terra de ânimo leve, escolhendo outra para morar? Seria a primeira de muitas reacções que a fariam deixar de se sentir em casa. Nunca seria dali, por isso o melhor era viver qual viajante temporária, até regressar à Guiné. Portugal não a merecia. E nem sabia o que perdia. 
 

Foto: Ana Filipa Oliveira

Sofia Branco