Mario Badagliacca

É um fotógrafo siciliano freelancer. Estudou Política e Relações Internacionais na Universidade Oriental de Nápoles e foto-reportagem e fotojornalismo em Roma.
A par da sua actividade como fotógrafo, colabora com diversas ONG. O seu trabalho documenta as migrações, o quotidiano nas fronteiras, a violação dos Direitos Humanos e outros temas sociais.

Lampedusa oferece-nos um observatório privilegiado da odisseia contemporânea da migração transnacional. Há mais de uma década, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças que chegam a esta pequena ilha no Mediterrâneo – mais perto de África do que de Itália – têm sido privados dos seus pertences e levados para os chamados “centros de identificação e expulsão”. Este acto de desapropriação, simultaneamente real e simbólica, tem privado os migrantes da sua identidade, tornando-os meros números.


Além de perderem os seus pertences – destinados a serem destruídos, – os migrantes são privados dos seus direitos básicos. No final da sua longa viagem, têm de enfrentar a discriminação e as leis e regulações ilusórias da “Europa Fortaleza”, mesmo quando buscam asilo político.

 

A oportunidade para este trabalho surgiu da ideia de iniciar um projecto que recuperasse os objectos, iniciado por diferentes associações e a Biblioteca Regional de Palermo. Deparei-me, num sótão escuro em Lampedusa, perante dezenas de caixas cheias de objectos deixados para trás por migrantes: sapatos usados, roupas, pacotes de cigarros, cruzes, bússolas, exemplares da Bíblia e do Corão, diários e cartas pessoais. Despejados originalmente na lixeira da ilha, e depois recuperados e armazenados por um grupo de voluntários locais, membros da associação Askavusa, estes fragmentos das vidas dos migrantes ajudam a traçar as diferentes subjectividades, medos, desejos, juntamente com a necessidade comum de sobrevivência.

 

Dário Pequeno Paraíso

Estudou na Cooperativa de Ensino Artístico Árvore no Porto e no Ar.Co em Lisboa. Fotógrafo do Público desde 1996. Professor e formador na área da Fotografia, tem livros publicados e está representado em colecções em Portugal e no estrangeiro. Faz parte do colectivo 121212 que  realizou um levantamento social de Portugal no ano de 2012 e, em 2017, publicou Carvões de Aço, sobre mineiros do Pejão, em Castelo de Paiva.

Nesta ilha, as mulheres carregam um fardo pesado, que inveja quem não consegue e entristece quem consegue. Sei pouco deste sentimento, apenas observo, em todos os cantos das roças, das quintas, dos campos e da cidade. Existem momentos e trocas de olhares em que revivo o olhar da minha mãe – forte, capaz, esperançoso, (e melhor ainda) corajoso.
 

Fui do norte ao sul de São Tomé e Príncipe e entre palaiês, advogadas, empreendedoras, vendedoras do mercado e empresárias, as inspiradoras histórias das suas vidas remetem-me a um lado sombrio e escondido na luta da igualdade de género. O percurso para melhorar as suas condições de vida é longo e apenas os seus sorrisos esquecem das suas tristeza.

- Sinceramente? A ligação aconteceu numa tarde calorosa de Novembro e
entendi o que seria viver e crescer nesta terra, em que sonhava ter um pedaço
deste olhar. Viajamos até Junho, a entender a esperança, lutando pela igualdade,
ouvindo desabafos, alegrias e tristezas. Sabia que não o iria sentir mesmo se tocasse
ou visse. Iria apenas sentir, se vivesse pela verdade dos factos pois o contrário
nunca arrefece.


Tenho saudades do nosso Janeiro.

 

Adriano Miranda

Estudou na Cooperativa de Ensino Artístico Árvore no Porto e no Ar.Co em Lisboa. Fotógrafo do Público desde 1996. Professor e formador na área da Fotografia, tem livros publicados e está representado em colecções em Portugal e no estrangeiro. Faz parte do colectivo 121212 que  realizou um levantamento social de Portugal no ano de 2012 e, em 2017, publicou Carvões de Aço, sobre mineiros do Pejão, em Castelo de Paiva.

Existem lugares em que o olhar nos remete constantemente para o passado. São lugares de história. A velha Bissau é assim. Um mistério. As casas, as ruas, o porto, as pessoas. Tudo é agitado, tudo é presente e tudo é passado. Para um fotógrafo é um lugar magnífico. A Fotografia gosta dos pigmentos, das rugas, dos cheiros, da franqueza. Ali temos tudo isso. Em cada esquina. Em cada barbearia. Em cada café. Em cada passeio.


O povo alimenta os quarteirões com os negócios, com as amizades, com as vaidades, com as irreverências, numa agitação por vezes perturbante. Sou branco. De máquina fotográfica ao peito. Olhado de lado por vezes. Olhado como amigo tantas outras. E depois, vem o sorriso comprometedor. O primeiro abraço que é o último. E depois ouço as histórias de vida. Comovo-me. E o branco que sou eu, ensinado desde a nascença, que os povos têm direito à sua independência, fico grato pela mão grande que aperta a minha mão pequena. Como irmãos.