por Ana Luísa Silva

Trabalhou como gestora de projetos de saúde comunitária na Nigéria, em Moçambique e Madagáscar. Neste momento, trabalha com startups em inovação ambiental. Tem mestrado em Estudos do Desenvolvimento pela London School of Economics e é doutoranda na mesma área na Universidade de Lisboa. O seu interesse de investigação é a inovação na cooperação para o desenvolvimento, em particular no setor da saúde.

Ross Baird é um empreendedor americano que, em 2009, lançou a Village Capital, um fundo de investimento de impacto (impact investing) com uma particularidade: a selecção das startups para investimento inicial é feita pelas próprias startups, num modelo de seleção pelos pares inspirado no conceito de village bank, tradicionalmente usado nas microfinanças. Uma das razões que levou os fundadores da Village Capital a desenvolver esta metodologia foi a constatação das limitações do atual sistema de inovação, do ponto de vista do capital de risco. São essas mesmas limitações, a sua análise e proposta de reforma que estão na origem do livro The innovation blind spot: why we back the wrong ideas – and what to do about it.

Neste livro, Baird começa por constatar que os EUA, país tradicionalmente inovador e empreendedor, unido pela idea do American Dream, está a passar por uma crise de empreendedorismo. Esta crise é ilustrada pela criação de novas empresas, ao nível mais baixo dos últimos 30 anos, e pelo baixo retorno financeiro dos maiores fundos de investimento, sedeados nas cidades mais ricas do país. Por outro lado, o autor observa que atualmente o empreendedorismo e a inovação não acontecem nas áreas que mais contribuem para o bem comum.

Na sua análise das imperfeições do sistema de capital de risco nos EUA, Baird identifica três grandes ângulos mortos da inovação (innovation blind spots): a forma como as novas ideias são escolhidas, de onde vêm essas ideias e a razão porque recebem investimento. O sucesso de uma ideia depende portanto de três fatores: como é que ela encaixa na estrutura de investimento de um investidor, qual é a origem (geográfica e socio-económica) do empreendedor e que tipo de problema está a ser resolvido. Através de exemplos, o autor conclui que o sistema privilegia o investimento em produtos e soluções para o grupo mais rico da população, que é também onde se inserem os investidores tradicionais (os que decidem onde investir). Esta abordagem top-down leva à existência dos tais innovation blind spots e impede a diversificação das áreas de investimento.

O resto do livro dedica-se à exposição de soluções para estes problemas, mais uma vez através de exemplos de como empreendedores, investidores (como a Village Capital), fundações e agências governamentais estão a transformar o sistema. Para Baird, a mudança passa por combinar as noções de lucro e de valor social/ambiental e pelo investimento em eco-sistemas e não em ideias individuais. Uma abordagem que passa a ser bottom-up, apostando em eco-sistemas que geram soluções locais para problemas sociais e ambientais locais (em diferentes contextos geográficos, económicos e sociais), permitirá diversificar o investimento, ultrapassar as innovation blind spots e, ao mesmo tempo, contribuir para um retorno financeiro mais durável.

 

É preciso notar que o livro parte de dois pressupostos, identificados pelo autor logo no início: 1) que o leitor é uma pessoa que se preocupa com o bem comum; 2) que o leitor acredita no sistema capitalista. Estes são os pressupostos que dão origem ao conceito de impact investing: é possível ter lucro com negócios dedicados ao bem-estar social e à saúde do planeta. Este não é portanto um livro que pretende contribuir para repensar estruturalmente o sistema capitalista, mas sim contribuir para um capitalismo mais preocupado com o bem-estar social e ambiental.

Quer se esteja ou não de acordo com esta perspetiva, a entrada dos fundos de investimento na inovação social e na cooperação para o desenvolvimento é hoje uma realidade. Os tradicionais financiadores da cooperação estão a diversificar as suas metodologias de financiamento, usando estratégias de capital de risco e procurando captar investimento privado. Um exemplo deste fenómeno é precisamente a parceria entre a Village Capital e o U.S. Global Development Lab (o centro de inovação da USAID, Agência para o Desenvolvimento dos EUA), que em 2014 contribuiu com 2,6 milhões de dólares americanos para o funcionamento do fundo, no âmbito de uma iniciativa com o objectivo de identificar novos modelos para apoiar jovens empresas inovadoras nos países em desenvolvimento. Esta iniciativa conta neste momento com mais de 40 parcerias semelhantes.

 No contexto atual, The innovation blind spot é um livro para refletir sobre estratégias de inovação, o crescimento do impact investing, a sua contribuição para a inovação social e as motivações dos investidores que estão a transformar o capital de risco.