Carmeliza Rosário

É doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Bergen, Noruega, onde desenvolve pesquisa sobre a memória de mulheres de poder e autoridade na Zambézia. Tem também desenvolvido pesquisa sobre pobreza, género e desenvolvimento. Actualmente, em associação com a Kaleidoscópio, integra o grupo de trabalho que explora a intercecção entre tecnologia, inovação e produção de conhecimento.

Euclides Gonçalves

É antropólogo e diretor da Kaleidoscopio - Pesquisa em Políticas Públicas e Cultura. Doutorado em Antropologia pela Universidade de Witwatersrand, as suas áreas de pesquisa incluem a governação, processos burocráticos e rituais políticos. Trabalhou como assistente de programas no CODESRIA (Senegal). O seu trabalho em curso examina os encontros dos cidadãos com o poder burocrático público. 

O contexto da tecnologia móvel e os mídia sociais em Moçambique

 

A penetração da internet em África permanece baixa, com cerca de 28% e a penetração do Facebook representando cerca de um terço.[1] A penetração em Moçambique está estimada em apenas 6%, e uma percentagem semelhante para os utilizadores do Facebook. A maioria destes utilizadores do Facebook, acredita-se que o acedem através de telefones móveis.

 

A penetração da telefonia móvel, ao contrário da Internet, é alta. Ao todo, estima-se que cerca de 77% da população moçambicana tenha acesso a um cartão SIM[2], com tendência para aumentar. Com a disponibilidade de smartphones e operadores mais acessíveis para um número cada vez maiores de utilizadores de rendimento médio-baixo, o uso de plataformas como o Facebook e o WhatsApp continuam a aumentar. O WhatsApp tem um particular apelo pelo seu serviço encriptado, o que permite comentário e crítica social com um pretenso sentido de anonimidade.

 

O uso dos telefones móveis tem sido descrito simultaneamente como mecanismo de consumo e produção de pobreza (Carmody 2012). No entanto, o seu potencial para a criação ou renovação do espaço público, particularmente em espaços autoritários também já foi assinalado (Abreu Lopes e Srinivasan 2014), ainda que estes espaços sejam virtuais, efémeros e de acessibilidade desigual.

 

No entanto, é de consenso que as redes com que se pode aceder através da tecnologia móvel são de grande importância e são o que têm influenciado a expansão desta tecnologia no continente. Estas redes, optimizadas através da tecnologia, sustentam relações cruciais até para subsistência, que de outra forma poderiam tornar-se fracas com a distância. Ao mesmo tempo, conforme iremos argumentar, estas redes podem servir simultaneamente como meio de desenvolver e disseminar comentário social de formas criativas.

 

 

O conteúdo

 

No presente artigo, partimos da ideia que África é um espaço de inovação e criatividade epistemológica. É dentro desta premissa que exploramos a intersecção entre a criatividade e o comentário social nas redes sociais. Na generalidade, a literatura sobre redes sociais e tecnologia de informação focalizam no uso das redes para mobilização social (Sassen 2005; Nyamnjoh 2005; Castells 2007; Juris 2008). A nossa abordagem foca especificamente em formas de comentário satírico e de entretenimento que, embora não levem necessariamente à mobilização, manifestam de forma viral e poderosa o sentimento público.

 

O WhatsApp, em particular, apresenta-se como um meio para a popularização do comentário criativo social anónimo. No entanto, este é muitas vezes um veículo para a propagação de mensagens originalmente postadas no Facebook. Por outro lado, as mensagens circuladas têm um efeito real, uma vez que produzem reacção fora das redes sociais, como comunicados de imprensa de instituições ou indivíduos afectados. Peças jornalísticas e reportagem, por vezes, também seguem temas de interesse despoletados dentro das redes.

 

A discussão que se segue baseia-se em três eventos amplamente difundidos e discutidos nas redes sociais, através de edição fotográfica, música, apropriação de memes e montagens de vídeo, de eventos ocorridos nos anos de 2017 e 2018.

 

 

Tseke

 

O primeiro caso refere-se a uma proposta em Fevereiro de 2017, para a produção e comercialização da planta amaranthus, conhecida nas línguas Tsonga do sul de Moçambique como Tseke. O intuito do governo era de melhorar a nutrição com uma planta nativa e de baixo custo de produção. A reacção foi rápida e generalizada, uma vez que a planta é tida como não tendo valor comercial, por crescer espontaneamente em qualquer lugar, incluindo junto a latrinas.

Alguns dos memes que circularam incluíam imagens de produtos comerciais com as marcas modificadas, como a Cerelac transformada em Tsekelac ou Paracetamol em Paratsekemol.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma imagem de Donald Trump continha o texto “Alô Nhussy… kero Tseke com Atum assado”. Esta imagem joga simultaneamente com a eleição de Trump e com o agudizar da crise que se abateu sobre a economia moçambicana, devido às dívidas contraídas pelo elenco governamental anterior, alegadamente para compras de barcos atuneiros.

 

Um outro meme apresenta o gabinete de ministros que introduziu a proposta do uso do Tseke, posando para uma fotografia em vestes desportivas, com a legenda Tseke FC.

 

Entre os vários vídeos que circularam, dois jovens mostram um terreno baldio onde o tseke cresce livremente e em tom jocoso descrevem as diferentes formas e momentos em que os jovens seguem as “ordens do governo”, por exemplo consumindo tseke depois de um jogo de futebol no bairro.

 

Um cantor prolífero lançou imediatamente uma canção e em seguida fez um vídeo. O vídeo, apresentado em cenário típico de um videoclip de hip hop, com mulheres glamourosas e homens opulentos, consumindo o desdenhado tseke como se se tratasse de um prato gourmet. A letra da música é simples e apelativa e joga com os vários temas de interesse social:

 

 

Ziqo - tseke

"Vamos comer tseke, vamos comer tseke

Se você não quer futseke[3] (3x)

Vamo' comer tseke, traga-me uma panela

Vamo' comer tseke, ponha-me óleo nela

Vamo' comer tseke, tô bizz[4] numa xima[5]

Vamo' comer tseke, tseke e xima como anima

 

Segunda taco[6] não houve

Terça eu comi couve

Eu tô txonado[7], logo nesta crise

Mas minha dama não ouve (2x)

 

Gosto da minha terra

O governo não ferra[8]

Falam muito lá: "comam tseke", logo num país que há guerra

 

Afinal tseke vem donde?

E como se faz pa ter tseke?

Hina xixi tanhana[9] (3x)"

 

 

A mesma música foi tocada em vários concertos pelo país, por um grupo de músicos considerados “all star” de uma produtora à qual o primeiro músico esteve associado no início da sua carreira. A letra foi ligeiramente alterada, satiricamente imprimindo ainda mais glamour ao consumo do tseke. Este exemplo permanece o expoente máximo da interacção do comentário e crítica social, com um interface tão potente dentro e fora das redes sociais. De tal modo que tseke foi considerada a palavra do ano de 2017 em circulação nos media e redes sociais, em Moçambique.

 

 

Partilha de responsabilidades

 

Em Abril de 2018, o presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi, deu um discurso na Chatham House, em Londres. Aí afirmou que os países com os quais Moçambique havia contraído a dívida, que causou a retirada do suporte ao Orçamento do Estado pelo FMI e demais doadores, também deveriam partilhar parte da culpa pelo endividamento. As instituições que fizeram o empréstimo, segundo ele, deveriam ter consciência que era dinheiro a mais a emprestar a um país pobre e que este não teria condições de repagar a dívida.

 

As reacções não se fizeram esperar. Num caso, um texto em circulação instruía quem tivesse dívida com o banco a usar a desculpa do presidente para não pagar, alegando que o banco deveria saber que para se endividar é porque a pessoa não tem dinheiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 5. Responda como Filipe Nyusi

 

Outra ilustração mostrava um ladrão de bancos a fugir dizendo que se fosse apanhado usaria o Plano Nyusi, culpando os bancos por o terem deixado entrar. A folha satírica de um jornal impresso usou uma das metáforas em circulação nas redes sociais e transformou em cartoon. Nele dois homens pagam menos pela bebida consumida. Quando o vendedor reclama eles afirmam que deve haver partilha de responsabilidades, consoante o exemplo do presidente. Afinal eles apenas beberam porque o vendedor lhes vendeu a bebida.

 

 

Preço da galinha

 

Abril é também o anúncio do ajuste salarial. Quase logo a seguir à visita do presidente a Londres, o ajuste salarial foi anunciado. O salário mínimo dos funcionários foi ajustado em 6.5%, que foi calculado como equivalendo a 260 meticais. Um dos jornais calculou como sendo suficiente para comprar seis cervejas. Outro calculou como sendo suficiente para comprar um frango. Um comentador de Facebook, cujo comentário circulou no WhatsApp também, lembrou que servia também para usar para transporte e votar em Outubro, presumivelmente na oposição.

 

Um jovem da província de Tete, no centro do país, usou o anúncio do preço da galinha vendida pelo seu vizinho para demonstrar que nem os 260 meticais chegariam para comprar o frango. A sua postagem, fora da capital, exemplifica o alcance permitido pela tecnologia do telefone móvel e das redes sociais para a difusão dos comentários sociais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 6. Frango mudou de preço

 

Reagindo às críticas, o presidente exprimiu que as considerava injustas, visto que o aumento era o possível, dado o contexto económico. No entanto, ele referiu que a inflação havia reduzido. Mencionou ainda que era possível comprar frangos por 50 meticais.

 

As reacções a esta última afirmação foram ainda mais virulentas. Foram circuladas fotografias de pintos, de frangos esqueléticos, de frangos em promoção. Na folha satírica do jornal alguém pedia 3 frangos na promoção do presidente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 7. Frango em promoção

 

Finalmente, alguém legendou o vídeo do espanhol risonho “el risitas”, com o seguinte texto:

 

“Apareceu com uns papos de falar de economia, inflação, cenas que não sabemos. Meteu água quando disse que frango está a 50 meticais. (risos)

Edjo! (risos)

Edjo! Nem 1kg de patinhas está a 50 meticais. (risos)”

 

Criatividade e comentário social

 

O autor Achille Mbembe[10] considera que os africanos encontraram na Internet a forma de se comunicar entre si e com o mundo. Esta conexão permite o acesso à informação, e com a Internet algumas das narrativas de libertação começam a ressurgir, particularmente dadas as desigualdades persistentes nas sociedades africanas. Mbembe reconhece o poder da Internet como uma fonte de mobilização. É também da opinião que este é um espaço onde tanto as vozes progressivas como as conservadoras clamam por este espaço. Ele argumenta ainda, que dada a natureza efémera e a virtualidade das redes sociais, a Internet não é suficiente para criar uma verdadeira esfera pública.

Do nosso ponto de vista, apesar da natureza efémera que o espaço digital oferece, este oferece uma aparente liberdade, principalmente através do anonimato e dos dados encriptados, principalmente no WhatsApp. Este formato em particular permite também restringir o conteúdo a uma audiência de confiança. Existe uma intersecção entre as trocas do foro privado e o consume público por uma audiência desconhecida. Nesta intersecção, excepto quando as mensagens são claramente atribuíveis a indivíduos que assumem a sua opinião, podem ser partilhadas e redistribuídas as opiniões mais chocantes, sob a protecção do anonimato e pretensa privacidade.

 

Anteriormente Mbembe (1992) havia notado que “as forças tirânicas da África Sub-Sahariana” devem ser estudadas dentro das trocas “subliminares e íntimas” entre os poderosos e os despojados. De facto, ainda de acordo com Mbembe “a obscenidade e vulgaridade constituem uma das modalidades de poder na pós-colónia”. Tal pode ser visto claramente nas trocas de WhatsApp, mesmo nas que pretendem ser do foro do entretenimento.

 

As novas tecnologias e plataformas de comunicação, como os telefones móveis, o WhatsApp e o Facebook, permitiram a criação de uma reapropriação criativa e a reconstrução de um espaço público onde novas formas de expressão populares não podem ser reprimidas. Ao mesmo tempo, estas aparentes novas formas de criação artísticas são, de alguma maneira, parte integral da forma como o engajamento social com o espaço público tem operado com os mídia clássicos. Por essa razão parece haver uma simbiose, diálogo e cumplicidade entre os diferentes meios de disseminação do comentário social.

Jeniffer Jackson (2009), analisando a política oratória de Madagáscar, articula de forma interessante as trocas delicadas entre as políticas locais em reacção à “democracia globalisadora e modernidade”. A comunicação dentro do WhatsApp tem impactos significativos, capazes de produzir realidades para além da virtualidade. A forma mais eficiente de comunicação parece ser a sátira, que antes habitava as peças teatrais e as canções, e que agora parece estar a encontrar extensão em memes virtuais e imagens em Photoshop.

Tal como Jackson, Toulabour (1996) também olha para a linguagem, em particular as palavras, na sua interacção com o processo de democratização. A linguagem, de acordo com ele, é múltipla e esconde múltiplas formas e significados. Dessas formas múltiplas se desenvolve a criatividade, com o intuito de dialogar, influenciar e moldar a realidade social, quer a democrática como a autoritária. As plataformas e redes sociais, que aptamente providenciam espaço para uma “ocupação amnésica”, ao mesmo tempo podem e têm sido usadas de forma criativa como veículo de opiniões e sentimentos.

 

Referências

 

Abreu Lopes, Claudia, and Sharath Srinivasan. 2014. “Africa’s Voices: Using Mobile Phones and Radio to Foster Mediated Public Discussion and to Gather Public Opinions in Africa.” Working Paper. https://www.repository.cam.ac.uk/handle/1810/245269.

Carmody, Pádraig. 2012. “The Informationalization of Poverty in Africa? Mobile Phones and Economic Structure.” Information Technologies & International Development 8 (3): 1–17.

Castells, Manuel. 2007. “Communication, Power and Counter-Power in the Network Society.” International Journal of Communication 1 (1): 29.

Jackson, Jennifer L. 2009. “To Tell It Directly or Not: Coding Transparency and Corruption in Malagasy Political Oratory.” Language in Society 38 (1): 47–69. doi:10.1017/S0047404508090039.

Juris, Jeffrey S. 2008. Networking Futures: The Movements against Corporate Globalization. 6.1.2008 edition. Durham, N.C: Duke University Press Books.

Mbembe, Achille. 1992. “The Banality of Power and the Aesthetics of Vulgarity in the Postcolony.” Public Culture 4 (2): 1–30. doi:10.1215/08992363-4-2-1.

Nyamnjoh, Francis B. 2005. Africa’s Media: Democracy and the Politics of Belonging. Zed Books.

Sassen, Saskia. 2005. “Electronic Markets and Activist Networks: The Weight of Social Logics in Digital Formations.” In Digital Formations: IT and New Architectures in the Global Realm, edited by Robert Latham and Saskia Sassen, 54–88. Princeton, N.J: Princeton University Press.

Toulabor, Comi M. 1996. “Les Mots Sont Fatigués Ou La Désillusion Démocratique Au Togo?” Politique Africaine, no. 64: 62–70.

 

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[1] Source: Internet World Stats (http://www.internetworldstats.com).

[2] Source: Mozambique - Telecoms, Mobile, Broadband and Digital Media - Statistics and Analyses (https://www.budde.com.au/Research/Mozambique-Telecoms-Mobile-Broadband-and-Digital-Media-Statistics-and-Analyses)

[3] 'Vai-te embora'.

[4] Ocupado (do inglês busy).

[5] Massa de milho.

[6] Dinheiro.

[7] Falido.

[8] Dorme

[9] Vem do xixi.

[10] The Internet is Afropolitan (https://thisisafrica.me/the-internet-is-afropolitan/).