Rui Santos

José Brito

Vice-presidente da CESO, professor convidado na Maastricht School of Management e Colégio da Europa, formador do Conselho da Europa em gestão de projectos de promoção dos Direitos Humanos, autor de Gestão do Ciclo de Projectos de Desenvolvimento e co-autor do Manual de Procurement Internacional, trabalha em cooperação para o desenvolvimento há mais de 25 anos, de África à Europa Central e de Leste, passando pela América Latina e Caraíbas.

Nascido em Dacar, é Administrador da IHABA, que visa apoiar a construção de empresasde inovação em África. Foi Ministro de vários Governos de Cabo Verde: Plano e Cooperação(77/91), Economia, Crescimento e Competitividade (07/08), Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades(08/11). Coordenou o projecto da ONU Futuros Africanos, visando ajudar os governos africanos a desenvolver processos de planeamento estratégico.

A questão da inovação vai muito para além da dimensão tecnológica e não pode ser vista como um fenómeno de modas, mas como algo estruturante no mundo do desenvolvimento. Nesse sentido, urge uma apropriação do desenvolvimento – por parte dos Governos, mas também da sociedade civil e de outros actores – para que o desenvolvimento seja realmente inclusivo e estejam reunidas as condições à criação de um ambiente favorável à inovação também social e organizacional.

RUI SANTOS (R.S.) — — Julgo que os parceiros tradicionais de desenvolvimento – nomeadamente as agências bi e multilaterais – continuam a abordar a questão da inovação através de uma perspectiva, fundamentalmente, tecnocrática. Olha-se muito para a inovação pelo lado da tecnologia, sem dúvida importante, mas há muitas dimensões da inovação que, mais do que esquecidas, por vezes, encontram resistências. Falamos da inovação social, organizacional em relação às quais há pouca permeabilidade.

JOSÉ BRITO (J.B.) — É um problema com o qual estou confrontado neste momento. Tenho a perspectiva de que a inovação não é só tecnológica, ela é social e organizacional, mas infelizmente os parceiros tradicionais estão ainda a pensar que a inovação é essencialmente tecnológica. Um dos problemas que todos nós, trabalhando no desenvolvimento, conhecemos, é que os nossos parceiros de desenvolvimento funcionam por modas. Agora existe a moda da economia digital, e todos se concentram na promoção da inovação tecnológica, não vendo que o problema é que não temos um ecossistema que promova a inovação, e que é um dos grandes problemas do continente africano. Aliás, tive hoje mesmo um encontro com três parceiros e a pergunta foi precisamente: qual é a diferença entre o African Innovation Summit, que estou a organizar em Kigali de 6 a 8 de Junho de 2018, e as várias outras conferências que tiveram lugar em Kigali, como o Transform Africa Summit? A diferença entre o que estamos a organizar e as outras iniciativas é justamente que nós nos preocupamos com o ambiente do negócio da inovação: qual é o ecossistema da inovação? E como é que criamos uma plataforma de diálogo entre os parceiros para permitir efectivamente que cada um faça a sua parte? Passamos já por vários fenómenos de modas, em vez de ver o problema de fundo, que é o desenvolvimento. É esse o nosso desafio, ou seja, não ser a inovação mais um fenómeno de modas. As inovações são essenciais ao desenvolvimento, mas nós não devemos tomar isto como um fenómeno de moda, mas como algo de estruturante no mundo do desenvolvimento. Um dos problemas que África tem é o que podemos chamar a monoeconomia dependente das matérias-primas. Hoje temos de transformar a nossa economia e sair da estratégia da gestão da pobreza. Já estou cansado da gestão da pobreza. Eu sei que sou pobre, mas o meu problema é que é preciso sair da mentalidade da gestão da pobreza para de facto levar as pessoas a ver as questões estruturais para mudar efectivamente esta situação.

R.S. — A fixação na gestão da pobreza é essencialmente uma fixação nos efeitos e não nas causas. Nós andamos a olhar para a pobreza como a causa de alguma coisa quando a pobreza é naturalmente um efeito da falta de emprego, da falta de desenvolvimento económico, da falta de oportunidades e, fundamentalmente, da falta de democracia. Podemos ter toda a inovação tecnológica do mundo, mas a inovação por si só, e nomeadamente a de natureza tecnológica não gera automaticamente desenvolvimento, aliás até pode gerar resistências ao progresso social e económico. Vejamos a forma como, por exemplo, a manipulação das redes sociais se tem transformado numa ameaça crescente à democracia ou como a evolução da inteligência artificial poderá mudar radicalmente a divisão internacional do trabalho. O José há pouco falou de uma dimensão da inovação que é para mim muito importante: o diálogo. Acho que a abordagem tradicional ao desenvolvimento fala muito em inclusão mas pratica muito pouco. Continuam a falar de diálogo político, mas só ao nível dos governos. As empresas são colocadas de lado, as organizações da sociedade civil são… não são colocadas de lado, mas a sua participação é ainda mitigada, mas, por exemplo, as empresas e o mundo empresarial não são parceiros. As autoridades locais também não o são. A inovação social pode contribuir de forma sensível para encontrar e reforçar abordagens mais inclusivas ao desenvolvimento. O desenvolvimento não é só uma questão de governos centrais e de diálogo político e institucional. Passa (e muito) pela inclusão de organizações da sociedade civil, empresas, organizações associativas, autoridades locais. Fala-se de diálogo e pensa-se sempre em diálogo político e institucional e esquece-se de um diálogo mais inclusivo, que envolva a sociedade civil, o sector privado, envolva organizações do poder local. 

J.B. — Nesta questão da inclusão a questão é saber quem a deve fazer. Um dos grandes problemas que temos no desenvolvimento é que nós, os africanos, deixamos o nosso desenvolvimento, ser na prática, gerido por outros, particularmente por aqueles que vêm trazer os meios financeiros, e demitimo-nos da nossa responsabilidade na gestão do desenvolvimento. Eu não posso imaginar o Banco Mundial a vir a Cabo Verde e fazer elemento-chave da sua ajuda a inclusão. Isso pertence aos cabo-verdianos. Quando digo cabo-verdianos penso no Governo, mas também na sociedade civil e em todos os actores do desenvolvimento. Nós temos de nos apropriar do nosso desenvolvimento, e é aí que temos o problema em África. Muitas vezes delegamos a nossa responsabilidade no desenvolvimento e por isso, nunca poderá haver um desenvolvimento inclusivo. Por isso, antes da inclusão, há a questão da apropriação do desenvolvimento e é neste quadro que considero que a inovação faz parte deste processo de apropriação. Temos de nos apropriar, temos de ser inclusivos e aí temos de facilitar a inovação, criar o ambiente favorável à inovação. Este ambiente favorável não é uma questão somente do Governo, do Estado, mas sim de todos nós.

R.S. — O José toca numa outra dimensão da inovação. A inovação organizacional. Se olharmos para a forma como essa demissão da gestão do desenvolvimento surge encontramos as causas na fragilidade das instituições democráticas, na fragilidade da sociedade civil. Contudo, parece-me redutor ficar por aqui. Se olharmos para a dinâmica da sociedade civil nas economias emergentes, registaram-se progressos significativos. Mas também julgo que se olharmos para a forma como hoje em dia a cooperação para o desenvolvimento é percepcionada por parte dos parceiros, das organizações internacionais e por parte dos países beneficiários, os veículos de implementação da mesma não mudaram nos últimos 60 anos atrás, quando se criou o Plano Marshall. Ou seja, hoje em dia as operações destas instituições – Banco Mundial, Nações Unidas, União Europeia – e a forma como os Governos dialogam com essas instituições, é baseada nas mesmas estruturas e instrumentos – são os projectos,
programas, linhas de financiamento. Pouco mudou desde a criação do Plano Marshall. Não fomos além de passinhos de bebé neste domínio e creio que as instituições e parceiros estão encerrados num quadro mental que pouco mudou em 6 décadas. Quais são as dimensões de inovação que nós podemos trazer? Como é que podemos mudar este paradigma de forma a ter uma abordagem diferente ao desenvolvimento que seja desligada das abordagens tradicionais que, inclusivamente, registam uma inevitável saturação? Como podemos nós, também
nesta dimensão, introduzir inovação para que, de facto, a cooperação para o desenvolvimento tenha um rosto mais humano e menos institucional, menos quantificado, menos tecnocrático?

J.B. — Está a tocar num problema que estou a viver na pele neste momento. Como sabe estou a organizar esta cimeira sobre inovação. É uma iniciativa privada que precisa de financiamento e os doadores tradicionais não têm os instrumentos para financiar esta iniciativa. Mesmo concordando com o que estou a fazer- mobilizar os povos africanos para encontrar soluções para os problemas africanos - eles não dispõem de instrumentos para ajudar. O problema deles é controlar o uso do seu dinheiro e não de fazer o desenvolvimento acontecer. Tenho o recente exemplo da União Europeia que, embora concorde absolutamente comigo, que é isto que tem de ser feito, acabou por não ter instrumentos para ajudar a nossa iniciativa. Isto significa que foram criados instrumentos para fazer o controlo impedindo qualquer criatividade, qualquer inovação para fazer o desenvolvimento acontecer. Encontrei a solução dizendo à União Europeia “ok, eu não quero receber nenhum dinheiro, vou dar uma lista das pessoas que quero que financiem a participação no evento e não quero ver nada”. A inovação consiste também neste aspecto – encontrar soluções para contornar os problemas sem infringir as regras. Tivemos vários casos destes em Cabo Verde. Quando tivemos o programa do MCA [Millenium Challenge Account] com os Estados Unidos, queriam criar uma estrutura específica para gerir o Programa e nós dissemos “nós, cabo-verdianos, podemos gerir o MCA”. Demonstramos que somos capazes de fornecer informações ao departamento que está a gerir o programa nos EUA, permitindo-lhe seguir em tempo real como está sendo utilizado o seu dinheiro. Conseguimos isto, como conseguimos também levar os países doadores a aceitar a ajuda ao orçamenta em vez da ajuda por projecto. Provámos que a ajuda por projeto não é eficiente, porque entre a identificação do projecto e a sua realização passam cinco anos e quando se chega aos cinco anos a situação que se queria modificar com o projeto já era diferente. Uma das explicações do grande desenvolvimento de Cabo Verde nestes últimos anos é termos conseguido provar que a ajuda ao orçamento é mais eficiente que a ajuda a projetos, acelera o desenvolvimento. A criatividade e inovação é isto, fazer as coisas diferentemente e de maneira mais eficiente. Hoje, por exemplo, a ajuda ao orçamento é algo normal, mas era extremamente difícil há quatro ou cinco anos atrás. A mesma coisa quando falamos de ajuda alimentar. Cabo Verde é um país que impôs a venda da ajuda alimentar. Nós dissemos “não queremos distribuir ajuda alimentar e consolidar a mentalidade de assistencialista, queremos monetizar a ajuda alimentar e utilizar o dinheiro desta monetarização para financiar o emprego”. Isto já em 1975, 77! E hoje em dia é praticamente normal vender ajuda alimentar e utilizar os fundos geridos para criar mais emprego e responder aos problemas. Não é só a responsabilidade dos nossos parceiros, é também a nossa responsabilidade. Nós temos de ter um sistema que dá confiança ao parceiro.

R.S. — É evidente que, do nosso lado, temos de encontrar estruturas e instituições que reforcem a confiança aos parceiros, nomeadamente no que respeita à gestão profissional de fundos e cumprimento de procedimentos. Tenho a noção clara que, do lado dos parceiros do desenvolvimento, muitas vezes são criadas barreiras à entrada que inviabilizam soluções e estratégias mais arrojadas. Como estava a dizer há pouco, nós e todos os parceiros temos neste momento um discurso muito aberto à inovação, muito aberto à parceria, ao diálogo, mas depois quando vamos ao terreno e procuramos as soluções e os instrumentos, os mesmos....não existem. Actualmente, fala-se muito no blending, do financiamento de operações de investimento privado em economias emergentes, mas quando vamos ver a dimensão dos investimentos que, por exemplo, a comunidade internacional apoia, são centenas de milhões de dólares que não são acessíveis à generalidade dos empresários das economias emergentes, seja na América Latina, seja em África. Este desajustamento entre discurso e realidade, entre o que se apregoa e o que se pratica mina a confiança entre os parceiros. Na sua óptica, perante esta ausência de instrumentos e ferramentas, que podemos fazer para que alterar o status quo? Exigirá num esforço combinado da sociedade civil na Europa, nos EUA, em África e na América Latina? Podemos nós esperar que do lado do diálogo mais político, institucional, possa vir alguma inovação? Qual pode ser o trigger para esta inovação? É mais uma dimensão de inovação social, organizacional? Sabendo nós que as burocracias resistem passivamente à mudança é seguro afirmar que a pressão tem de vir do lado da sociedade civil. O que pode acelerar este processo?

J.B. — Tem absolutamente razão, porque acho que tem de ser um esforço dos dois lados, para tentar se adaptar à nova realidade. O argumento principal dos nossos parceiros, na parte institucional, é dizer que têm de prestar contas, a accountability, junto da sua sociedade civil. Por isso, eu não quero ser acusado de não defender os interesses da sociedade civil daqueles que nos ajudam. Isto significa que tem de haver um maior diálogo com os nossos parceiros de desenvolvimento, e uma maior intervenção junto da sociedade civil organizada dos nossos parceiros, sobretudo com as pessoas que têm uma maior sensibilidade para estas questões do desenvolvimento, para podermos conjuntamente fazer evoluir os instrumentos da ajuda ao desenvolvimento. Temos de fazer evoluir estes instrumentos. Mas, ao mesmo tempo, não devemos ser ingénuos, sabemos que esta Ajuda ao Desenvolvimento tem um objectivo. Não é por acaso que se fala em triliões de dólares para o orçamento do Banco Mundial, enquanto que o Banco Africano de Desenvolvimento, que é o principal parceiro africano dos Estados africanos, não consegue mobilizar o financiamento para os seus programas. Não é por acaso que todo o dinheiro vai para o Banco Mundial, que é o maior defensor de uma certa ortodoxia sobre as políticas de desenvolvimento, e não para as instituições africanas. Não devemos ser ingénuos, isto é uma luta. Quem vai apoiar esta luta? Há o exemplo de Amílcar Cabral na luta pela libertação nacional, que sempre estabeleceu a diferença entre o governo fascista de um lado e o povo português do outro. Criar uma aliança objectiva com os representantes do povo português durante a luta de libertação nacional é que fez com que, no momento de ruptura do pacto colonial, já tínhamos junto do povo português muito apoio e avançou-se mais rapidamente e conseguimos muita coisa. Penso que devemos colocar a questão da mesma forma, que temos de trabalhar também com aqueles que no ocidente querem realmente o desenvolvimento, um desenvolvimento diferente, em vez daquele desenvolvimento que estão a impor, que é a gestão da pobreza. E nós, em África, não podemos fazer uma política de laissez-faire, ou seja, deixar as coisas avançarem por si. Temos de utilizar a inovação como factor de aceleração do desenvolvimento. Temos de criar um ambiente favorável, ter políticas públicas que ajudem a reforçar a inovação, temos mesmo de criar um programa de investimento em inovação que permita também aos inovadores poderem contar com um financiamento que responda às suas necessidades. Eu estou a gerir neste momento uma start up, e estou a enfrentar a falta de instrumentos de apoio adaptados. Temos um sector privado africano que tem dinheiro, temos mesmo filantropos africanos, mas que preferem pagar 500 mil a um milhão de dólares para falar no encontro de Davos do que pôr este montante numa startup que pode mudar completamente África. Continuamos com mentalidade assistencialista e de dependência. Tive esta experiência em relação às energias renováveis. Liderei um estudo para termos 100% de energias renováveis em Cabo Verde mas defrontei-me com outras interesses que conseguiram convencer o meu Governo que era irrealista e que não era possível mobilizar os financiamentos necessários. Ao mesmo tempo a iniciativa Obama, “Power Africa” conseguiu mobilizar muitos financiamentos africanos, mas para financiar empresas americanas de energias convencionais. É esta a nossa realidade. Já deixei de ser ingénuo e sei que todo o dia é uma luta. Sim, vamos trabalhar para melhorar o nosso diálogo com aqueles que no ocidente sabem o que é o real desenvolvimento, mas ao mesmo tempo, nós mesmos, temos de ter políticas que defendam os nossos interesses e acabar com o laissez-faire da  estratégia de desenvolvimento actual.

R.S. — Na última década temos assistido ao aparecimento de novos parceiros, nomeadamente no domínio da filantropia global. Tem alguma esperança que eventualmente a designada Corporate Social Responsability possa dinamizar um tipo de diálogo diferente e forçar algumas mudanças na dimensão política? Da sua experiência no terreno, há alguma razão para esperarmos que essa mudança política possa ser um bocado forçada por esta dimensão de responsabilidade social, por este investimento no desenvolvimento? Há pouco tempo estive no Gana e achei curioso, por exemplo, que o Facebook ofereça acesso gratuito a internet, desde que....seja para navegar no Facebook . A Google tem uma série de iniciativas de disseminação da internet em África. Considera que a Corporate Social Responsability pode trazer outra mentalidade, uma acção diferente, outro tipo de parcerias ou basicamente tudo isto acabará sempre por ir parar ao mesmo tipo de soluções, ao mesmo tipo de abordagens?

J.B. — De facto, há uma nova dimensão, a da responsabilidade social das empresas, mas a CRS e alguma filantropia muitas vezes estão alinhados com os interesses que questionamos. Vemos Fundações que vão surgindo que são muitas vezes instrumentos das empresas, para defender os seus interesses ,como é o exemplo do Facebook no Gana. Há o exemplo de um inovador togolês que desenvolveu uma tecnologia que permitiria ter internet nas zonas rurais onde não há infraestruturas e energia , mas que não consegue encontrar apoio para avançar. Ao mesmo tempo, estamos a receber ajudas destas multinacionais que muitas vezes matam a iniciativa local. Não quero a estratégia dos outros, quero ter a minha estratégia e avançar para realizar a minha estratégia. Se a minha estratégia coincide com a estratégia dos outros, então fazemos um deal. Mas não tenho a ingenuidade de acreditar que estão a ajudar-nos por caridade. Na minha estratégia tenho de conhecer os actores, de maneira a chegar uma situação winwin, onde cada um de nós ganha. E não é responsabilidade dos outros, eu digo sempre que é a minha responsabilidade. Ninguém me falta respeito, eu que é que me dou ao respeito. E é neste diálogo que podemos avançar. Quero levantar um outro aspecto que me parece importante neste domínio da inovação: fazer a diferença entre a vontade política (political will) e o conhecimento de política (political knowledge). Podemos ter uma vontade política, penso que muitos dirigentes têm, mas não têm conhecimento justamente para construirem as políticas públicas que permitem o desenvolvimento. Estamos num mundo que está a mudar muito rapidamente e muitas vezes temos leadership público - não estou a falar somente de leadership político, mas também privado - que não tem noção do que se está a passar. A inteligência artificial e outras tecnologias como o blockchain estão a mudar o mundo tão rapidamente que a maioria dos líderes privados e públicos desconhece que, neste momento, já se estão a criar inovações que vão mudar a minha vida nos próximos 20, 30 anos. Mas muitas vezes as pessoas desconhecem isto, por isso a importância do conhecimento na gestão do desenvolvimento. Aí coloca-se o problema da formação. A formação leva-nos a um nível mais elevado de apreensão dos verdadeiros desafios que se colocam no futuro. Hoje, a questão não é mais ser de esquerda ou de direita. A questão está mais entre o passado e o futuro e, muitas vezes, estamos a defender soluções do passado, com a posição de esquerda ou de direita, quando a principal questão são os problemas do futuro. Neste mundo globalizado, em que estamos interdependentes, se não tenho capacidade de aprender com o passado, estarei sempre atrasado em relação ao outro. Eu não posso ter um sistema de educação baseado num professor tradicional, que me transmite conhecimento estático, que não tem em conta a aceleração do ritmo histórico.

R.S. — Há aqui uma dimensão que é evidente: é necessário melhorar a políticas públicas na área do desenvolvimento, tornando-as mais informadas. É um processo longo e que, naturalmente, produzirá resultados a longoprazo. Nessa medida, a qualidade das políticas públicas acaba por ser sempre determinada e influenciada pela pressão que a própria sociedade civil exerce sobre os políticos, para que estes procurem respostas às suas necessidades. Como podemos melhorar a qualidade das políticas públicas num contexto em que os políticos não estão ainda suficientemente informados e formados sobre o impacto que a inovação pode produzir no desenvolvimento? Como podemos encurtar esta décalage entre a qualidade das políticas e as exigências da sociedade?

J.B. — Sim, isto é verdade, não podemos esperar a evolução da sociedade política para resolvermos os problemas, sobretudo perante a situação do tempo histórico que temos hoje. O sistema político que herdámos já não funciona mais, porque precisamente as sociedades civis têm acesso a informação que não tinham antigamente, o sistema de relações mudou completamente. Hoje um político que mantém uma maneira antiga de fazer política está cada vez mais fora do tempo. Nós verificamos nas últimas eleições na Europa, quer seja em França ou Itália, e mesmo Espanha, que os partidos políticos clássicos não estão em sintonia com a sociedade civil, a qual está mais apta para agir e influenciar. Daí que estamos numa situação de transição entre o sistema político existente e a própria realidade do terreno, onde existe uma sociedade civil bastante mais informada. A situação de transição em que nos encontramos é extremamente perigosa, porque leva efectivamente ao extremismo que estamos a ver actualmente e que não é bom. Não podemos deitar fora os partidos políticos e substituir por nada. A sociedade precisa de ser motivada, precisa de ter uma liderança necessária e previsível, mas não podemos funcionar na base daquele que tem maior capacidade de influência ou utiliza melhor os meios de comunicação modernos ou tem outros tipos de interesse. Digamos que vamos tendo uma evolução, vamos aprendendo, vão surgir políticos mais informados, mas sobretudo temos de formar mais a nossa sociedade civil. Muitas vezes, as pessoas não estão a compreender os desafios actuais da nossa sociedade.

R.S. — Acho que tocou num ponto fulcral e foi também um pouco por isso que quis descentrar esta conversa da dimensão tecnológica, porque o fundamental para criar uma abertura à inovação não é necessariamente a tecnologia. A tecnologia, aliás, encerra muitos perigos de ser ela própria uma ameaça à democracia. Temos visto muito isso nos EUA, com a eleição do Trump, com a manipulação das redes sociais. Vemos isso com o Brexit, vemos isso com os movimentos de radicalização que basicamente utilizam a tecnologia como uma ameaça à própria democracia. E, portanto, o desenvolvimento tem que apostar é no fortalecimento da sociedade civil e apostar na educação, para que essa sociedade civil force a melhoria da qualidade das políticas públicas e da sua implementação. E se ela for verdadeiramente fortalecida, porque a cidadania se torna mais exigente, inevitavelmente teremos melhores políticas e políticos mais comprometidos com o desenvolvimento justo e equitativo. A sociedade exige outro tipo de políticas, outro tipo de políticos e o grande perigo é verdadeiramente os políticos não derem resposta a estas necessidades, dando origem a fenómenos de radicalização, populismos e ameaças à democracia. E as ameaças à democracia asfixiam a sociedade civil e aí sim voltaremos à estaca zero.

J.B. — Um dos problemas existenciais da nossa sociedade é resolver problemas daqueles que são excluídos da sociedade. Penso, como africano, que há muita gente na pobreza, muita gente sem acesso à educação, sem acesso à saúde, no fundo, às necessidades básicas das populações. A nossa preocupação é de promover tecnologias que permitam acelerar a resolução desses problemas. E existem! Em Cabo Verde, por exemplo, um dos grandes problemas que sempre tivemos é a seca. Hoje em dia, com a introdução da irrigação gota-agota, passarmos temporadas sem chuva já não é um flagelo. Mas para levar as inovações a resolver os problemas das populações temos de ter políticas públicas que o permitam. Por exemplo, os Finteck, os pagamentos através do mobile, surgiram no Quénia, em África, porque houve um inovador que conseguiu responder a um problema concreto das populações, que é o dos pagamentos para os excluídos do sistema bancário. Criou-se um sistema de pagamento e desenvolveu-se uma nova economia que, hoje em dia, é um fenómeno continental, um fenómeno mundial. Mas as pessoas esquecem que isto só foi possível porque o banco central do Quénia permitiu deixar a inovação avançar sem a regular imediatamente. Só regulou depois. Em Cabo Verde, a resposta do banco central era regular primeiro, antes da inovação ser utilizada. Por isso, estamos mais atrasados que o resto do continente africano no tocante ao uso dos Fintech. Tenho um exemplo com a minha empresa, em que demonstrei que têm muito a ganhar trabalhando com ela, como um innovation lab, digamos um laboratório de inovação. Porquê? Porque não se pode gerar inovação dentro de uma grande empresa. As grandes empresas não podem de facto inovar, elas podem melhorar a qualidade dos seus produtos, mas a inovação, que consiste em responder a uma necessidade do mercado ou do consumidor, vem muitas vezes de fora. Para responder e ser consequente, criei esta cimeira sobre inovação em África, onde vou trazer todos os actores, sejam públicos – chefes de Estado, ministros – mas também as instituições de inovação. Estou a tentar fazer a minha parte, trazendo esta reflexão ao nível de África, esperando levar cada vez mais gente a entender que a interdependência é um elemento essencial hoje do desenvolvimento. Não estou sozinho no meu país, não estou sozinho na minha família, fazemos parte de um sistema, que funciona porque o outro funciona também. Queremos criar consciência dessa interdependência que nós mesmos como seres humanos temos. Fazemos parte de um ecossistema. Estamos numa sociedade, em que somos todos sistemas, temos que ter consciência desta interdependência entre os vários factores e entre todas as actividades e, a partir daí, criar algo que permita funcionar para resolver os problemas desta nossa sociedade. Sim, é bom começar a pensar ir a Marte, mas ao mesmo tempo temos gente a morrer de fome, estamos a destruir com a poluição o nosso ambiente que é parte do nosso ecossistema - e ao mesmo tempo estão a pensar fazer grandes coisas, mas que não correspondem ao que precisamos. É evidente que há gente mais informada que outros, e se pudermos criar uma união de gente mais informada, criar uma aliança africana e um espaço onde cada um faz a sua parte, podemos mudar este mundo cujo futuro nos preocupa.

R.S. — Claro e acho que é essa a nossa obrigação e o nosso papel – forçar e dinamizar a mudança nas várias latitudes por onde passamos e nas várias instituições com as quais trabalhamos, seja a nível governamental, seja a nível de financiadores ou de organizações da sociedade civil. Como disse, e bem, as instituições não mudam sozinhas. Só mudam se fizermos por isso e a vontade de mudar, muitas vezes, não está lá.