Silvio Caccia Bava

É sociólogo, mestre em ciência política pela Universidade de São Paulo - USP, presidente do conselho de administração da Action Aid Brasil, membro do Conselho Estratégico Universidade-Sociedade da Universidade Federal
de São Paulo - UNIFESP, diretor executivo do jornal Le Monde Diplomatique
Brasil. Foi fundador e diretor executivo do Instituto Pólis e presidente da Associação Brasileira de ONGs por dois mandatos.

Ainda hoje, passado quase um ano das eleições, seus resultados continuam desafiando nossa compreensão. Como foi que a extrema direita venceu? Por que continua havendo na sociedade brasileira a polarização que separou familiares, amigos e vizinhos em dois grupos: os que são pró-Bolsonaro e os que são contra? O que virá pela frente? E, para tornar a questão ainda mais complexa, como explicar o avanço da extrema direita não só em um país, mas, de maneira geral, por todo o planeta?

 

São muitos os argumentos, mas na área da comunicação, além das análises já tradicionais acerca do papel da mídia impressa e televisiva e seu poder de influência sobre o eleitorado, defrontamo-nos na atualidade com a questão do uso da inteligência artificial e de novas tecnologias de comunicação, coisas do século XXI.

 

No caso do Brasil, é preciso reconhecer o papel central dos meios de comunicação na construção do cenário pré-golpe, na sustentação do golpe que depôs a presidenta eleita Dilma Rousseff, em 2016, e na ascensão da extrema direita. O poder (eficácia) das mídias para conduzir o golpe só pode ser compreendido, por sua vez, levando em conta uma articulação entre mídias  tradicionais e mídias digitais.

  

Uma longa campanha da mídia tradicional acusando os governos democrático-trabalhistas de corrupção e má gestão, associada ao favorecimento da extrema direita por gigantes da internet, como o Facebook e o Google, levou a uma mudança radical no cenário político brasileiro.

  

As fake news e o uso intensivo das redes sociais, o descrédito com os partidos políticos e com o sistema político-democrático, a insegurança e a violência promovidas por um Estado policial e repressor, a desvalorização dos direitos humanos, o medo e o ódio disseminados pela internet, todos esses são elementos que explicam o contexto da eleição de Bolsonaro, na esteira da ascensão de governos autoritários mundo afora.

 

O fenômeno do populismo de direita, do qual Bolsonaro se tornou um ícone global, articula-se com a emergência das mídias digitais, em especial com o acoplamento redes sociais digitais/smartphone como interface estrutural dos fluxos comunicacionais.

 

A concentração de poder pelos grandes grupos midiáticos (TV e jornais), com a monopolização da informação em mãos de poucas famílias da elite, que por esses meios defendem seus interesses corporativos e financeiros particulares, ocultam e manipulam informações, submetendo a opinião pública à passividade e à aceitação das políticas de austeridade, assim como às arbitrariedades de um Estado policial e repressor.

 

Existe uma distribuição de poder desigual com relação à produção de conhecimento. Há mais de dez anos há no Brasil um investimento financeiro forte em think tanks e grupos ativistas formadores de opinião para a produção de interpretações da realidade alinhadas com os interesses do grande capital e da extrema direita.

  

As narrativas hegemônicas contam com alcance muito grande e difusão rápida em razão do uso de novas tecnologias. Promovem ataques aos direitos humanos e à própria democracia.

 

Os debates públicos são vistos como atos de contestação do poder e estão sendo atacados por militantes bolsonaristas e pelo próprio governo, estão se estreitando os espaços da crítica e do exercício democrático do dissenso. Está em processo o fechamento

do espaço público.

 

A sociedade tem acesso restrito e insuficiente às informações, muitas vezes falsas e inadequadas, sobre políticas e leis que afetam sua vida. Há dificuldade em avaliar a veracidade delas e enfrentar a homogeneização do pensamento dominante.

 

A distribuição de poder é desigual nos processos de formação da opinião pública e se deve também ao controle dos espaços da mídia digital. Especialistas e atores coletivos críticos são invisibilizados pela mídia conservadora. Formadores de opinião respeitáveis têm pouco espaço para a difusão de suas ideias e pesquisas. Os meios disponíveis para os defensores da democracia e dos direitos humanos são insuficientes para ampliar a difusão de informações e o aprofundamento do debate.

 

No Brasil, os grupos de compartilhamento privado existentes na internet tornaram-se o campo de batalha de uma extrema direita que promove uma “guerra de ocupação semiótica”, na qual o adversário deve ser aniquilado pela propagação do ódio, e de mentiras em escala e fluxo contínuo até o completo “afogamento” da opinião pública por fake news. Dessa forma, é interditado o debate, negada a pluralidade e a diversidade democráticas, e rompidos os vínculos narrativos com história, verdade e realidade.

 

O potencial desse novo modelo de comunicação pública pode ser medido pela cobertura digital no Brasil: em 2017, domicílios com celular chegavam a 93,2%, e o acesso à internet, a 97,0% dos lares 1. Trocar mensagens foi a finalidade de acesso de 95,5% dos usuários das redes digitais1. Nesse cenário, os smartphones são a “interface universal” de acesso a rede digitais e ao debate político.

 

Hoje vivemos uma nova “mudança estrutural na esfera pública”, com uma reconfiguração dos meios de comunicação tradicionais após o surgimento de grandes redes digitais globalizadas, cujo objetivo é a exploração do perfil privado dos usuários e a

manipulação das rotas de navegação com fins econômicos e políticos perversos 2.

 

Para avançarmos na compreensão do impacto dessas novas redes digitais globalizadas na política, apresentamos a seguir alguns elementos que permitem reconhecer o papel que Facebook e Google tiveram nas últimas eleições brasileiras.

WhatsApp

 

Surgido em 2009, o WhatsApp tem hoje 1,5 mil milhões 3 de usuários no mundo. Em 2014, foi comprado pelo Facebook. No Brasil, essa plataforma tem 120 milhões de usuários e 48% o consideram fonte de notícias. Sua interferência nas eleições de 2018 foi determinante para os resultados obtidos.

 

O WhatsApp é apresentado como um programa de comunicação interpessoal seguro, criptografado, que só permite o acesso do emissor e do receptor. Ninguém mais ficaria sabendo dos conteúdos das mensagens.

Acontece que essa virtude do sigilo passou a ser também a arma dos manipuladores de opinião. Com o uso da inteligência artificial são desenvolvidos programas capazes de coletar os números de telefone de milhares de brasileiros no Facebook, segmentá-los de acordo com seus interesses específicos, gênero, cidade onde moram etc., criar automaticamente grupos que até há pouco podiam abrigar até 256 pessoas cada e enviar para eles mensagens em massa automaticamente no WhatsApp 4.

A manipulação política dos cidadãos parece ter adquirido escala a partir dos estudos da consultoria Cambridge Analytica, empresa que declara possuir algo como 5 mil informações de cada cidadão, por meio da coleta nas redes sociais (ver no YouTube o vídeo “Privacidade hackeada”).

 

Segundo o jornal Folha de S. Paulo de 18 de outubro de 2018, empresários que apoiaram Bolsonaro pagaram (via caixa-dois) o envio, por meio de robôs, de milhões de mensagens no WhatsApp contra o PT. Esses robôs, denominados bots, apresentam-se

como usuários reais e são programados para disseminar boatos e notícias falsas, interagindo com os demais usuários e levando discussões aos trending topics, isto é, colocando seus temas em maior evidência que outros.

 

Estudo da FGV/Dapp identifica que 20% das discussões envolvendo política nas redes sociais são de responsabilidade dos bots. Na campanha de Jair Bolsonaro, 33% de seus apoiadores nas redes sociais eram perfis falsos que faziam circular memes escandalosos, vídeos mentirosos e áudios altamente virais 5.

 

A agência de verificação Aos Fatos identificou que, apenas no dia 7 de outubro, dia das eleições, 1,7 milhões de notícias falsas foram compartilhadas no Facebook. Essas campanhas se abrigaram no WhatsApp e no Facebook Messenger.

Apenas como referência, na Índia, nas eleições legislativas deste ano, os dois principais partidos declaravam ter mais de 20 mil grupos de WhatsApp que chegavam a cada distrito ou vilarejo de certas regiões. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

YouTube 6

 

​O YouTube surgiu em 2005 e foi comprado pelo Google em 2006. Recentemente instalou um poderoso sistema de inteligência artificial que aprende com o comportamento do usuário e apresenta vídeos com recomendação para outros. Num esforço para reter o usuário na rede, o sistema de recomendação apela para novos vídeos com conteúdos cada vez mais extremos e assim alimentou a ascensão da extrema direita.

​Visto mais que a maioria das redes de TV aberta, utilizando-se de algoritmos e difundindo fake news e conspirações, o YouTube teve papel decisivo na vitória de Bolsonaro. Isso aconteceu impulsionando-se artificialmente não apenas os canais de extrema direita, que até então não tinham importância, eram periféricos na internet, mas também seus usuários mais radicais, que chegaram a ameaçar de morte seus “inimigos”.

 

Nos meses que se seguiram à mudança em seus algoritmos, as menções positivas a Bolsonaro explodiram, retirando esse então anônimo parlamentar do ostracismo, assim como as mensagens que denunciavam conspirações, como a infiltração do comunismo

nas escolas, as vacinas que geram doenças, o marxismo cultural, a Terra plana. Os algoritmos reuniram canais marginais e construíram para eles uma audiência. A ultradireita no YouTube viu sua audiência explodir, atingindo um grande número de brasileiros.

O uso do YouTube para assédio e ameaça aos inimigos políticos da extrema direita, e mesmo a cidadãos comuns, tornou-se recorrente, e, como o sistema de inteligência artificial leva a vídeos mais radicais, controversos e provocativos, suas vítimas

se declaram amedrontadas, ameaçadas e preocupadas com a própria integridade física. Várias pessoas, personagens públicos, saíram do país com medo dessas ameaças.

 

Importantes membros da extrema direita declararam que o YouTube se transformou em sua mídia social, e pesquisadores identificaram que essa plataforma direcionou sistematicamente seus usuários para canais de extrema direita e de conspiração.

As emoções que esses vídeos suscitam – medo, dúvida, raiva – são elementos centrais das teorias de conspiração e, em particular, do radicalismo da extrema direita.

 

​Não há como defender a neutralidade do YouTube, pois depoimentos de usuários demonstram sua condução para sites de ultradireita. “Algumas vezes, quando estou assistindo a um vídeo sobre jogos, surge, de repente, um vídeo sobre Bolsonaro”, declara

Inzaghi, um estudante de Niterói, 17 anos 7. Como a inteligência artificial conduz para vídeos mais provocativos que os que estão sendo vistos pelo usuário, para reter sua atenção, ela o direciona para conteúdos extremos que não poderiam ser acessados

de outra forma.

 

Mauricio Martins, vice-presidente do PSL em Niterói, declara que a maior parte dos afiliados foi recrutada graças ao YouTube. É importante observar que os jovens e os estudantes têm no YouTube sua principal fonte de informação.

 

À medida que a extrema direita avança, suas lideranças aprendem a transformar em armas seus vídeos de conspiração, oferecendo a vastas audiências o alvo para atacar. E, como os canais de extrema direita se referem uns aos outros, o sistema de recomendações do YouTube os liga e articula, tornando sua presença e as mensagens que eles veiculam algo ampliado, que parece ser a realidade.

 

Em casos como os de acusação de professores estarem disseminando o comunismo, a extrema direita ataca estes pela internet, os ameaça, os ofende, criando um clima de medo. “E é esta justamente a intenção: que eles sintam medo, afinal se trata de uma guerra cultural que nós estamos enfrentando”, diz um de seus impulsionadores. A realidade é desenhada pelas mensagens que viralizam...

 

A guerra cultural serve não só para alinhar nas hostes de Bolsonaro grupos conservadores como são as igrejas evangélicas neopentecostais, mas também para acobertar as políticas de destruição do patrimônio público por meio das privatizações; os

ataques ao meio ambiente pelo agronegócio e pela mineração; a espoliação das maiorias pelas reformas da previdência e  trabalhista; o favorecimento de grandes corporações, como foi a isenção de pagamentos de impostos para as petroleiras internacionais como a Shell, a British Petroleum e a Exxon na exploração do pré-sal, coisa de R$ 50 mil milhões por ano, aprovada pelo Congresso Nacional este ano.

Estimativas apontam que o total das isenções de impostos para empresas operando no Brasil chegou a mais de R$ 270 mil milhões em 2016. Se considerarmos, entretanto, não apenas as isenções, mas também o conjunto dos benefícios tributários, financeiros e creditícios, eles somaram R$ 385 mil milhões em 2016 8. Apenas para comparação, os cortes orçamentários que estão paralisando as universidades públicas federais não chegam a R$ 3 mil milhões.

A radicalidade do programa de privatizações é expressa por Paulo Guedes, ministro da Economia. Ele declara que pretende privatizar todas as empresas estatais federais 9.

O desmantelamento da capacidade reguladora do Estado, as privatizações das empresas públicas, a abertura indiscriminada do mercado brasileiro para produtos de outros países, política que promove a desindustrialização do Brasil e mesmo o colapso de setores industriais como a indústria naval, fazem o país retroagir para a condição de exportador de produtos naturais e commodities.

As perspectivas de um desenvolvimento sustentável, autônomo, capaz de enfrentar as desigualdades sociais e a pobreza, e colocar o Brasil como protagonista no cenário internacional, desaparecem. Cada vez mais retroagimos a uma condição de colônia dos Estados Unidos.

1 Disponível em: www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/sociais/trabalho/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html?=&t=downloads.
2 Ver: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/25/eps/1524679056_056165.html.
3 1,5 bilhão, em português do Brasil

4 Matheus Magenta, Juliana Gragnani e Felipe Souza, “Manipulação eleitoral: a conexão Whats-Facebook”, BBC Brasil (captado em Outras Palavras).
5 Fonte: Instituto InternetLab. Citado por Brunella Nunes, em “Como robôs atuam nas redes sociais para manipular seu 
voto nas eleições de 2018”.

6 The Weekly – programa de TV do NYT. Episódio 9: The Rabbit Hole. Produtores/diretores: Gemma Jordan e Alyse Shorland. Essa excelente reportagem é a base de informações para esta parte referente ao YouTube.

7 Max Fisher e Amanda Taub, “How YouTube Radicalized Brazil”, New York Times, 11 ago. 2019.

8 Segundo estudo dos economistas Vilma da Conceição Pinto e José Roberto Afonso, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas.
9 “ ‘Vamos privatizar tudo; temos R$ 1 trilhão em ativos a receber’, diz Paulo Guedes”, Veja, 27 ago. 2018 (atualizado em 28 ago. 2018).

"Hoje vivemos uma nova ‘mudança
estrutural na esfera pública’, com uma
reconfiguração dos meios de comunicação
tradicionais após o surgimento de grandes
redes digitais globalizadas"