OPINIÃO PÚBLICA

pelo Conselho Editorial

Partimos do pressuposto que a preocupação com a formação da opinião pública, por parte do campo alargado da cooperação para o desenvolvimento, tem por objectivo a “aprendizagem do mundo” (P. Freire, 1972), ou seja, construir uma visão de mundo mais ampla e aprofundada que a limitada às nossas fronteiras ou às camadas superficiais da realidade, e a partir daí uma base de apoio alargada à nossa intervenção, como país e cidadãos, no desenvolvimento e na cooperação. Do mais recente Euro Barómetro sobre “Cidadãos Europeus e Cooperação para o Desenvolvimento” (2018) destacamos dois resultados sobre Portugal, para ponto de partida para a abordagem necessariamente parcelar que aqui fazemos. A primeira tem a ver com motivações: 87% dos inquiridos em Portugal (uma das percentagens mais altas da UE) consideram que se trata de uma obrigação moral; o segundo resultado é o de que a maior fonte de informação sobre a cooperação para o desenvolvimento é a televisão (73%), ou seja, uma informação que por definição é instantânea, assente em imagens, e cada vez mais misturando informação e entretenimento, expressão da “sociedade do espectáculo” (G. Debord, 1972).


Neste contexto, duas preocupações ocorrem-nos: a primeira tem a ver com a “fragilidade” das motivações morais, que, sendo uma base de partida muito positiva em tempo de individualismo e interesses nacionais, tem o risco de reforçar atitudes paternalistas e geradoras de desconfiança sobre os resultados da cooperação (“Understanding UK public attitudes to aid and development”, IPPR e ODI, 2012) e centrar o apoio privado em iniciativas do tipo assistencialista.

 

A segunda preocupação tem a ver com o peso das imagens (televisivas ou fotográficas) na construção das Imagens do (não) desenvolvimento, relegando para plano muito inferior outros meios que poderiam fornecer leituras mais espessas, consistentes, suscitando reflexão e motivação. Tal é particularmente imperioso numa fase da nossa vida em sociedade / nação / mundo em que
cada vez mais a intermediação é feita por profissionais outros que não os jornalistas, nomeadamente por profissionais do entretenimento.

 

No seu ensaio “Ensaios sobre a Fotografia”(ed. portuguesa 2012), S. Sontag refere a contradição existente de “se na maneira moderna de saber, tem que haver imagens para que uma coisa se torne real”, o inverso – ou seja – tudo o que nos chega sob a forma de imagens, obtidas através de uma câmara, adquire automaticamente o estatuto de “real” e, por analogia, passa à categoria de “verdade”. E este nosso “real” inclui os dois lados de um espelho imóvel: “nós” – altruístas, conhecedores, indispensáveis, e os “outros” – frágeis, necessitadas, dependentes.

E se é verdade que a Cooperação Portuguesa tem apoiado, de forma regular, iniciativas consistentes para a construção da opinião pública, como o apoio a projectos da iniciativa de ONGD no âmbito de uma Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento, é também verdade que as iniciativas próprias, ou de outros actores, são episódicas, por vezes contraditórias e com pendor utilitarista – citemos coisas tão díspares como suplementos pagos em jornais, uma revista institucional de pouca dura, edições de Dias do Desenvolvimento (positivas, mas rapidamente abandonadas), um sítio oficial de fragmentos noticiosos sobre língua e cooperação, convites a jornalistas para viagens oficiais e/ou para noticiar os “nossos projectos”. Se este panorama é verdade em relação ao Estado, não deixa também de o ser em relação a outros intervenientes, onde são escassas as iniciativas de qualidade, com a colaboração de profissionais mais atentos, sob a forma de edições, exposições, filmes, criações jornalísticas.


Torna-se por isso muito evidente a ausência de uma visão partilhada sobre formação de opinião pública, e, nesse quadro, de uma estratégia de comunicação que promova valores, princípios éticos, que defina intermediários privilegiados e formas de relacionamento, o papel dos meios públicos de comunicação social, identifique as questões críticas actuais (o estudo realizado pela Plataforma de ONGD e a Universidade de Aveiro em 2005 continua a ser o único, apesar de terem surgido no âmbito da academia e de uma ou outra ONGD iniciativas de investigação e debate, que podem contribuir para uma reflexão estratégica).


Neste quadro, sinalizemos algumas questões para debate e opções políticas futuras: Como vemos o papel dos jornalistas e as fronteiras de relações colaborativas? Qual o papel do serviço público de televisão, incluindo da RTP África? Em temas com riscos tão evidentes de imagens desajustadas, quais os critérios para a escolha de mediadores? Quais os referenciais que devem balizar as iniciativas a promover/apoiar? Qual o lugar das pessoas e instituições dos países com quem cooperamos, em respeito pela sua voz e dignidade? Não será de repensar a abordagem dominante de “Educação para o Desenvolvimento”, tão centrada na vertente ensino, numa estratégia mais politicamente assumida de suscitar a “aprendizagem do mundo” promotora da participação
individual e colectiva?