CONHECIMENTO

pelo Conselho Editorial

Em 1974, num tempo marcado pelo processo negocial da descolonização, as primeiras entidades estatais criadas com o propósito de definir e implementar políticas de cooperação com os países africanos de língua portuguesa, definiram o ensino superior e a ciência como sectores-chave. A disponibilização de bolsas de estudo, a recepção de quadros africanos em processos formativos ligados à governação, e o envio de cooperantes portugueses para trabalhar nas administrações públicas africanas, a “assistência técnica”, estiveram entre as primeiras, sendo das mais duradouras, práticas de cooperação. Simultaneamente, universidades e centros de investigação portugueses foram sendo chamados a realizar estudos sobre “temas associados ao desenvolvimento” nos PALOP. A centralidade então atribuída ao eixo educação / ciência / assistência técnica não pode ser dissociada da política de valorização geoestratégica da língua portuguesa como instrumento de influência, considerada elemento-chave das relações pós-coloniais pela generalidade dos governos portugueses, e dos modelos de pensar/fazer cooperação internacional dominantes na década de 1960/1970, articulados pelas ideias de “estágios de desenvolvimento” e “transferência de conhecimento”. A transformação dos “paradigmas da cooperação” no final do século XX e no início do século XXI, a crítica aos modelos de “ajuda”, aos seus resultados e conceitos fundadores, a diversificação dos intervenientes, e as necessidades de especialização, colocam a investigação/educação/ informação no centro do debate, que inclui hoje a própria ideia de desenvolvimento.

 

A participação de Portugal na comunidade internacional, incluindo no sistema de cooperação para o desenvolvimento, transformar-se-ia após a ditadura, com a mudança nas relações com as Nações Unidas, a adesão à Comunidade Europeia (1986) e, já na década de 1990, o regresso ao Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da OCDE. A diversificação de agentes intervenientes no sector (ONG, autarquias, consultoras) contribuiriam para o incremento do interesse de académicos, técnicos e estudantes portugueses por domínios da política internacional e da cooperação.

 

A partir dos anos 1980, assistiu-se à criação de cursos de Relações Internacionais, com importante procura, a par de cursos de graduação e pós-graduação em Cooperação para o Desenvolvimento, dando origem a um corpo de trabalhos, de licenciatura, mestrado e doutoramento sobre áreas diversas da política externa. A cooperação foi sendo abordada noutras ciências sociais, a partir de questões como “globalização”, “desenvolvimento económico”, “instituições internacionais”. Foram fundados centros de investigação que incluem nas suas linhas de pesquisa, o “desenvolvimento internacional” a partir de tradições teóricas distintas. Para além do ensino/investigação, as universidades portuguesas têm actuado em programas de cooperação com suas congéneres de outros países, e na produção de estudos ou avaliações. Ao longo das últimas décadas, a criação de centros de investigação nas universidades africanas e a sua integração em projectos e redes internacionais de pesquisa tem contribuído para o questionamento epistemológico, conceptual e das relações de poder na construção de conhecimento, também sobre o “desenvolvimento”.


Em Portugal, outros intervenientes têm vindo a produzir estudos e pesquisas, as instituições estatais, ONG, think thanks e algumas consultoras privadas. A par das universidades, que formam os intervenientes, também aqueles promovem espaços formativos (não formais), geralmente articulados com práticas concretas. O panorama de produção de investigação e de formação especializada
naquela área apresenta-se assim diverso, e difuso, num contexto em que os espaços de diálogo são limitados. De salientar que nos últimos anos, o Camões, I.P. tem disponibilizado uma linha de financiamento para “seminários e investigação” que constitui uma oportunidade para actores diversos trabalharem em conjunto sobre temáticas associadas ao sector, apesar das limitações de recursos financeiros. Todavia, a ligação entre investigação, diálogo, formulação e avaliação de políticas permanece frágil.


Importa então questionar, de que modo a formação superior e a investigação produzida em Portugal sobre “cooperação para o desenvolvimento” tem contribuído para responder aos desafios que se colocam no sector? Que temas têm sido trabalhados e que lacunas persistem? Qual o papel dos diversos intervenientes no questionamento de representações simplificadas da “cooperação para o desenvolvimento” que limitam o debate público a perspetivas assistencialistas / securitárias, ou de diplomacia económica, e das visões estereotipadas e redutoras do “Outro”? De que modo a política de cooperação no eixo formação / conhecimento integra as universidades e académicos dos países parceiros nos processos de pesquisa, em todas as suas dimensões (conceptual, epistemológica, metodológica) e fases, (desde a definição das questões de pesquisa à publicação dos resultados)?